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Três vidas numa garagem

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06:30
Confirmo os olhos rajados de cansaço no espelho do elevador e desço para a garagem. Quando abro a porta de segurança há luz em todo o piso e é então que a vejo. Farda vermelha, impecavelmente arranjada, aqueles saltos altos que não estando nos meus pés me apertam como se estivessem. Cabelo numa trança e a maquilhagem de quem vai receber um Óscar nos minutos seguintes. Dali a umas horas, o seu sorriso com batom vermelho será a sua ferramenta de trabalho algures no espaço aéreo. Será que sorri? Estou na garagem. Na mesma garagem onde me cruzo com o polícia simpático sempre que chego muito tarde e onde me cruzo com ela sempre que saio muito cedo. Às vezes é o contrário. Não chego a dizer-lhe “bom dia” porque já entrara no carro. Vou de sapatilhas, sem sensualidade apertada, o cabelo é a desordem do costume, o rimel dos olhos sairá assim que os esfregar em sucessivos bocejos. Levo sono e a consciência de que devo sorrir e fazer a diferença, como se de um polícia ou hospedeira se tratasse…

(Des)amor

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Quando esse fio de escuridão assoma, choramos escondendo a cara, com milhares de clarões a queimar por dentro, a rasgar esse mundo que era tudo mas vira raiva. Até ao dia em que, no silêncio, e como se nos levantássemos de um campo de malmequeres, sorrimos e não vemos nada mais senão esperança.

Marlon Williams no Lisboa ao Vivo - 17.11.2018

Chove e as maçãs...

Chove.
Já todos o disseram e já todos o escreveram.
Chove muito, eu saí de casa para comprar maçãs para cozer. E esqueci-me delas na pouca água em que é suposto ferverem.
Chove.
Tenho uma panela preta com restos de maça estorricada.
Poucos o fizeram, quase ninguém o escreveu.

Agora, que penso no Zé Sopa

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Eu reflectida no José Mata ou Zé Sopa, carregador de Peixe, o homem com o sorriso mais bonito que vi ontem. Ainda que numa fotografia, num poster, de uma exposição de rua, uma espécie de tributo ao mar, aos homens que dele vivem e lhe servem. Que histórias contaria? Pergunto-me. Que alegrias e tristezas? Que essência existe ali, para além daquele que sorri para uma câmara?

O fracasso

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07h40 na ponte Vasco da Gama e o Tejo a querer ser mar, com o princípio do vento forte. O primeiro pedacinho de sol seria visível às 08h00 em ponto. E eu pensava o que estava ali a fazer. Que ideia era aquela de sair de casa a um sábado, ainda de noite, a bocejar a cada segundo, de calções já vestidos e com um cansaço tremendo no corpo e no espírito.  Seria um fracasso ter ficado a dormir, isenta das dores que iria trazer, como é sempre um fracasso não conseguir ficar entre os dez primeiros da prova, como foi um fracasso todo o tempo que ausentei o desporto das minhas rotinas.  E é precisamente quando vejo e revejo esse fracasso que me mobilizo para algo. Tem sido mais ou menos assim ao longo do tempo.






Duratrail 18Km >> Serra da Arrábida - Setúbal >> 27.10.2018

Ao M., sobretudo, ao M.

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Nulípara. É a primeira palavra do relatório médico, logo a seguir ao número em idade. E lembrei-me logo da sexta-feira, no restaurante da cadeia de fast food da segunda circular, naquela abertura solene de uma viagem, com a euforia de três crianças (que depois seriam cinco) e aquele aviso das mães para que me preparasse porque iria ser um fim-de-semana intenso. E foi.  Porque não existe teoria, autor, investigador, psicólogo, pai, mãe ou a intervenção divina ou do universo que  tenha a solução milagrosa de acalmar uma birra, um drama, uma consumição de uma criança. Tenha ela dois ou dez anos. Ou, simplesmente, seja a solução mais acertada para apostar num crescimento livre de tudo que é menos bom e que, tendencialmente, atribuímos a factores exógenos (extra quatro paredes). Sem o ser, claro. E quando tudo me parece vazio, hiper quadrado, com crianças formatadas para um mundo descartável o M., de dez anos completos, chorou porque não conseguiu, logo à primeira, visitar o amigo da mesma…

O elefante

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Um elefante entrou numa loja de porcelanas. E de velharias. Deteve-se com o homem do piano, cigarrilha na boca e olhar adentro. Desses olhares que não podemos desviar porque falam. É quase o Palma a cantar "o meu amor tem lábios de silêncio", sem Whisky. Não era essa a música que soava, mas foi dela que o elefante se lembrou. O elefante viajou no tempo, pensou muito, fez a cronologia dos momentos de cada sítio que pisou. Dali, a poucos metros das escadas das sereias e da calçada de Monchique até à outra margem.  Com lábios de silêncio. E sem estragos de maior. Um tanto a salvo da loucura. Ou talvez não.




Armazém | Porto, 20/10/2018