Mensagens

janela #8

O dia cinzento deixa mais visíveis os pequenos pontos fluorescente dos coletes dos homens das obras. Continuam ali e eu deixei de contar os dias.  Da hora de verão vem-nos o dia mais tardiamente mas parece-me que os pássaros chegam mais cedo, a chilrear.  Na praceta em frente os homens da jardinagem cortam a relva. São uns quatros, naquele quadrado ladeado de prédios, onde suponho que a manhã tenha sido um despertar forçado com o barulho das máquinas. Em baixo, na rua, de leggins justas e corpos torneados lá vão elas, lado a lado, para a caminhada que já nem me importo de escrutinar.  O stayfuckhome não é para todos. É para quem pode e não faz e para quem gostaria e não pode.

janela #7

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Já o tinha visto na fila para o supermercado há uns dias atrás, nessa nova rotina das nossas vidas. Impaciente, ia e vinha tentanto manter as distâncias dos demais. Alto, cabelos longos, grisalhos e apanhados, com um ar de artista e de vida inconformada. Ontem, deixei o lixo e fui pelo descampado em direcção à Travessa das Azinhagas e depois pela Rua Direita.  A rua vazia e o largo sem a criançada a correr em desvario parecem um lugar fantasma. Na porta do dezassete há um bilhete que diz "se surgirem dúvidas médicas e de saúde, pode perguntar no número 24." Mais à frente na tasca, o bilhete tem erros ortográficos e o mesmo ar carcomido que o anterior. Na porta da capelinha escreveu-se "que deus nos livre desta peste". A todos o sol já comeu o vigor das letras no papel, mas talvez ali permaneça a tristeza de quem os escreveu. As obras prossegem e o casario cobre-se de um fino manto de pó. Ao fundo, na casa do Cesário, vejo a mesma figura do homem do supermercado. A…

A romaria

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Eram as duas da tarde e Manuel ajustava o chapéu de aba, apertava o último botão da camisa e sacudia o pó do casaco. O mesmo que não lhe desmerecerá o porte quando desembarcar no Rio uns meses mais tarde, depois de longos dias no mar. Espera por Viriato e Helena que descem a calçada. Ela toc toc, que as meias novas lhe escorregam nos socos, braço firme a segurar a cesta da merenda e ele com os mistérios escondidos em palha verga.  Já se ouvem os morteiros e eles vão listos, pela Rua Barão de Maracaná, pois querem chegar a tempo de ver sair o pálio.  Mais à frente, aquele corpo esguio curva-se, meio escondio por um farrapo preto e dispara memórias numa caixa de luz. São os Almeida, que ali estão. Os garotos posam assustados e nunca saberão que os seus  rostos tisnados pelo sol e aquela pontinha de ranho a chegar à boca farão as delícias das senhoras que param no Bazar Foto-Central, no Porto, para ver os retratos. - Agora nós - atira Manuel, enquanto a Helena esconde o cesto à foto.

Po…

janela #6

A mensagem dizia que a encomenda seria entrege no dia vinte e cinco e foi. Do outro lado, já se pode agora fazer ou atender uma chamada,  ainda que a minha mãe se queixe do modelo de telemóvel escolhido porque os "botões" não se vêem. Mas, a verdade é que à distância de um click, poder fazer chegar algo a alguém numa altura destas comove-me mais do que os vídeozinhos das mensagens de esperança de que o mundo precisava parar. Sim, precisava mas que não me parem os serviços de correio! No espaço de uma semana, fiz chegar livros e um telemóvel em tempo útil no meio de uma pandemia quando, no início de Dezembro, num daqueles dias em que um temporal parou o país, não recebi uma encomenda em casa e mais umas semanas se passariam até resolver o problema. 

janela #5

Saíam quase sempre à mesma hora do que eu. A carrinha de nove lugares, conduzida pela mãe (suponho) esperava que todos tomassem o seu assento. As raparigas altas, de meias até ao joelho e saias plissadas eram as primeiras a entrar. Depois vinham os rapazes, desfraldados, caras de sono, a arrastar as mochilas e de bola de futebol no regaço. Não me voltei a cruzar com eles. A família numerosa, como atesta o dístico que têm na própria carrinha. Imagino-os num monte alentejano. Jardim e terreno a perder de vista, onde os rapazes fazem a vida menos pacata aos lagartos, ao cão da casa e ao gato Tobias. As raparigas prosseguem assíduas no estudo, improvisam bolos na cozinha onde se dividem em tarefas na enorme mesa corrida. À tarde saem, descem a encosta da casa a nascente, e regressam uma hora depois com molhinhos de flores do campo. Não se lembram, sequer, dessas manhãs em que esperavam uns pelos outros na garagem de um prédio de Lisboa, com cheiro a tubo de escape.




janela #4

Testei aquele exercício do step na cadeira e voltei  a esticar-me no sofá.  A gata aninhou-se nas minhas pernas e recebo a mensagem sobre a tal app dos convívios ou jantares digitais. Mas o que se passa com as pessoas? Que angústia é esta de não saber ter cinco minutos de silêncio, de estar sozinhos entre quatro paredes?  E então lembrei-me do que se passou há umas semanas.  Contornei a Sé, no Funchal, desci a praceta, entrei na rua do restaurante que pesquisara na internet e chegada à porta do mesmo fui recebida por um empregado de bom ar, avental moderno que me estendeu o braço em frente quando lhe disse  - é para jantar, para uma pessoa. Subi as escadas de madeira, e entrei na sala ampla, de luz quente, com apenas uma mesa ocupada. Vi o ambiente rústico que convidava a ficar e o empregado disse-me que podia escolher entre as mesas de dois lugares mas indicou-me que poderia ficar na mesa central, que teria uma melhor perspectiva da sala. E o que se passou a seguir foi eu ter imagin…

janela #3

Da janela, lembro-me quando ia correr, e de todas as vezes em que pensei guardar a memória sobre aquela papelaria da esquina do prédio, umas ruas mais acima. Vai para quatro anos que cá estou e talvez tenha o mesmo tempo o meu fascínio por aquela montra, pela luz que permanece ligada toda a noite como se de um verdadeiro negócio activo se tratasse.  O prédio é moderno, em frente à escola, e por estes dias até lhe vi movimento no rés do chão, que aparenta ser os preparativos da abertura de um café. E mesa de bilhar terá, que já a puseram, junto à vidraça.  Entretanto, o sol continuará a roubar as cores dos postais que continuam no expositor da papelaria, das cartolinas de diferentes cores e tamanhos, das mochilas com bonecada que ainda dão alegria àquele espaço que parece ter vida e não ter. Chego, até, a pensar no cheiro a lápis de cor, se lhe abríssemos a porta. No cheiro das borrachas verdes, ou das brancas, que cheiravam a adocicado e dava vontade de comer.  Nunca parei, para espr…