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A vida dele, talvez

Ele olhava para o telemóvel como quase toda a gente que seguia no metro. Se o mundo acabasse naquele momento eu não conseguiria cruzar um olhar com ninguém.
Tinha cabelos compridos desordenados, barba não muito aparada, vestia calças rasgadas, um casaco verde tropa e tinha ar de artista. Com ele, uma pequena caixa gasta.
Perguntei-me em que rua teria estado a tocar, quem foram as pessoas que lhe deixaram uma moeda, quanto teria ganho durante o dia, onde viveria, onde iria estar no dia seguinte e no outro e quais as músicas que gostava de tocar. Onde teria estudado música (se o fez) e quais seriam os seus sonhos.
Pensei que, se saísse na mesma estação, talvez o pudesse ajudar a levar os amplificadores.
E então levantou-se, a pequena garrafa de água caiu, eu hesitei para a agarrar, olhou-me e sorriu. Um sorriso luminoso. Com muita calma segurou todas as tralhas e saiu.

Ficou por perguntar se era de um violino, aquela caixa. A vida dele, talvez.



O frio (nos museus também)

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Eu não me queixo do frio porque é uma coisa natural. É certo que se viessem os - 39 graus da costa leste Americana morreríamos todos e o facebook fechava com a quantidade de fotos de termómetros que íamos partilhar.
Eu queixo-me do que temos de pagar para manter as casas quentes e compreendo perfeitamente a EDP quando se recusa a pagar a taxa extraordinária de energia ao Estado. Aquilo é uma pipa de massa, tal como a última factura da luz que recebi depois de ter ligado o meu querido Becken. 
Ele nem teve tempo de dar todos aqueles estalinhos próprios de um aquecedor a óleo. O meu peso na consciência era tal que o desliguei dez minutos depois. O suficiente para que os dígitos rodassem naquela factura acompanhada de uma carta simpática com a informação de que os preços vão ser actualizados. Eu nunca vou entender aquelas facturas, nem mesmo se tirar um doutoramente em física quântica. Se há pessoas que não compreendem os seus recibos de vencimento pela complexidade de rúbricas e de lin…

Ao terceiro dia que, afinal, é o sexto

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Os dias já a desfilarem o desassossego, aquele desânimo de saber que ao terceiro dia afinal continuo a querer comer todas as sobras das festas, o regresso às rotinas e a essa essência tão pura de que não faço aquilo que gostaria. Todos os anos a história se repete. As nossas vidas mudam sim mas eu estou sempre à espera que seja algo grandioso, repentino como uma tempestade. Em grande e profundo, portanto. E às vezes as pequenas coisas podem ser as mais surpreendentes. E de tão pequenas que nem as vemos. 
Escrevo isto enrolada num cobertor no sofá e esse pode ser um bom começo. E uma dessas pequenas coisas. A casa está gelada, o aquecedor no quarto e eu dou graças por não existir uma TV, caso contrário eu iria afundar-me no sofá e sairía no Verão, quando o sol e o calor inundarem este sexto andar.
Em cima da mesa jaz o pequeno livro de colorir com a caixa dos lápis de cor. Ainda não saí da primeira página, tudo o que pintei está muito bonito, sem passar das linhas mas temo que fique p…

A carta

Na foto impressa a Isabel estava junto ao presépio, pernas meio à chinês e, segundo ela, era do Natal de 92.
Na carta vinha uma outra fotografia com bungavílias e teria sido registada pelo filho nesse Verão, no parque de Aveiro.
Passaram vinte e quatro anos sobre a data daquela correspondência e hoje, ao descobrir essa carta, perguntei-me qual terá sido a história da Isabel, quantos Natais passou com o filho, onde viverá se o destino não a tramou,  ainda gostará de trocar correspondência com pessoas de todo o mundo?

Amanhã, hoje não

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Quando o vento assobia nas janelas eu já só penso no amanhã, sem me despegar desta solidão de hoje. Solidão de querer silêncio, de querer fazer muitas coisas mas sem sair desta bolha do "deixei-me estar". Às vezes apetece mandar parar o tempo para que quando quiser voltar a sair portas não tenha corrido um minuto que seja. Nunca é assim. E ainda bem. Estaria demasiadas vezes nessa batota.
Trouxe Hemingway da estante do N. e agora não o consigo ler. É sobre África e começou sobre caça e agora já não há nada fazer. Porque nem sinto apelo por África, muito menos por caça. Procurei outro livro hoje, enquanto fugia dessa loucura colectiva de um centro comercial numa manhã de domingo, mas o corpo pedia sofá e ouvir Georgia. A cabeça a latejar e desisti nesse brusco encontrão com as pessoas que sobem uma escada rolante e param no topo. No caminho, o doce apelo dos cheiros do mercado de Natal desajeitado. E nessa mistura de festa popular com feira medieval desejei aquela queijada d…

O Zé do vale queimado

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Voltámos.

Na dureza do frio, o vale queimado continua lá mas com mais esperança em tudo o que já se renovou, construiu e reproduziu. Doem-nos as mãos, na aspereza e dureza das tarefas de um dia. É um dia apenas. Não nos enganemos. Nunca nos enganemos! É nisso que penso quando vejo aquele olhar do Zé pastor. E ele não tem essa sorte de ser apenas um dia. De corpo frágil, olhos meios claros e aquela figura que resvala da matreirice para a clemência de um abraço. Aquele olhar vago, que vê uma terra que não é a sua mas que lhe dá muito mais do que essa onde nasceu. É um olhar de perda, de cansaço, de solidão e desamparo. Ou então é o Zé apenas. De roupas miseráveis, cheiro a borrego, mazelas no corpo dos vícios que não curam a alma. Não tem ídolos e não conhece aqueles a quem choram na TV, não sei se sabe ler ou escrever mas aparenta o dobro da idade que tem.

Mesmo que não voltemos é por ele que vou perguntar. O resto está muito bem encaminhado.

26.11.2017

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Encontrei-o quando já as dores cavalgavam no meu corpo e parei para ver o anoitecer. E para desculpar essa fraqueza do corpo que rapidamente alastra para o espírito e deixa-nos mais perdidos do que um velho tronco.