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Começaria assim

Naquele fim de tarde ele era um vazio mais fundo que um oceano. Nem o tilintar dos mastros junto à doca o arrancavam daquele turpor em que seguia, ainda a desfazer o nó da gravata e de olhos postos no chão. Acabaria por cair a noite e ele por ali, sem arrancar ao corpo um cansaço que o fizesse parar. Foi então que inclinou a cabeça para acender um cigarro e viu o pequeno letreiro, no oleado do barco. Um número de telefone, apenas. Enquanto o passava para um pequeno papel não pensou nesse exacto momento, que barco era aquele, quantas milhas já percorrera e que vagas o poderiam libertar de uma ruína lenta.  Estava sem bateria no telemóvel mas algo lhe dizia para não esperar para o dia seguinte. Caminhou em direcção à avenida principal e apanhou um táxi em direcção ao hotel. Sentou-se no escuro do quarto, marcou o número e esperou.  Nada. Voltou a chamar. Alguém atende: -Boa noite, fala o Manuel.


30.11.2019

Cheira a castanhas assadas.
Rua acima, rua abaixo em desfile de encontrões e  o que já vemos sem olhar, aquilo que nunca iremos ver e os que se escondem para não ser vistos.
A música mistura - se e obriga aos decretos dos palcos de calçada. Ora uns, ora outros, em amplificações rascas para os que param em redor com os olhos androidianos apontados.
Nunca veremos de outro modo, só assim, e  enquanto filmamos somos roubados.
Rua acima, rua abaixo.
O Chiado num retrato.

O Jei, ontem

O Jei vai sobre a pressão do meu corpo entre o banco dele e o banco do passageiro, enquanto vejo a hora de chegada ao destino no gps do telemóvel. Diz-me da má hora, do trânsito e eu já sei que estamos nesse vulgar momento em que uma cidade pode parar para entrar numa ponte. O Jei vai falando, nesse sotaque que me lembra o nordestino. Conta-me da reserva natural junto da sua terra natal, das mudanças que sentiu quando se mudou há quatro anos e pergunta-me se algum dia visitei o Brasil. E então a minha ansiedade morre naquele cheiro de chuva caindo sobre o verde da ilha grande. Morre na primeira viagem de táxi em que sigo aquele calçadão, na ousadia de subir ao morro e comer o frango frito naquela esplanada em pleno coração do Vidigal. O Jei sabe que eu tenho pressa. Não a mesma pressa que ele teria em quatro horas no trânsito de S. Paulo, para a mesma distância. O Jei faz-me perguntas e sabe que até eu chegar, não se trata de um atraso, mas da minha capacidade para relativizar.

T(r)emer

Quando eu tocava clarinete e tinha "audições-de-fazer-por-casa" tremia muito das mãos. Os dedos gelavam e não tinham a destreza necessária para o que as  semicolcheias exigiam. Nesses momentos, pensava sempre no que poderia fazer para controlar os nervos. Nunca resolvi esse problema (entre outros) e poderia reunir com todos os gurus do tema que estaria exactamente na mesma.  O tremer das mãos resultava apenas numa prestação menos boa e no ego ferido, obviamente.

- Não movimente o olho - dizia o médico enquanto virava a pálpebra do avesso.  - O Doutor nunca treme das mãos? - perguntei. - (risos) 
Então eu fiquei a pensar em todas as profissões do mundo em que o tremer das mãos, em nervoso, pode ser fatal.
E não encontrei outra mais importante do que a de um cirurgião. Em que um centésimo de milímetro faz toda a diferença. Ou nenhuma, até.  Ali, se ele falhar, a cortina fecha-se devagarinho sem direito a aplauso.



A frase

Eu estava na página 250 e lia assim: "Sexo, drogas e rock'n'roll", disse Laura quando o carro cruzou os portões para o interior da escola".
Percebi que alguém tinha vindo do lado da livraria e ficou, ali, algum tempo imóvel, a olhar para a parede em frente.
Depois foi ao balcão e perguntou às meninas alguma coisa que não entendi. Elas leram a frase que está escrita naquela parede, em português. E uma delas disse que não sabia como explicar-lhe. Ele era um rapaz alto, cara de miúdo, blusão desportivo, calças clássicas e sapatilhas. Então elas usaram o programa de tradução com voz, mas não consegui perceber o que o aparelho terá feito com aquela frase. 
O rapaz, agora do lado interior do balcão a olhar para a tradução no computador, sorria e, ora olhava para o ecrã, ora para a parede.
- don't worry - rematou com um sorriso e voltou em direcção à livraria.
E então uma delas, olhou para mim e como que justificando algum embaraço, disse que às vezes é muito difícil…

Albertino, o padre rock star

O Albertino apanha-me nas torres, de mão a segurar o olho esquerdo, numa versão de fazer inveja ao próprio Camões. - espero que não seja grave - diz-me.  Depois fala do tempo, da aplicação que nos guia por entre ruas que desconheço, das senhoras que às vezes se irritam. Irritam-se muito, cada vez mais.  O Albertino tem os cabelos brancos penteados eximiamente. É um homem de sorriso fácil e rugas marcadas. Veste um blusão de pele que faz dele o meu rock star das quatro da tarde. É o Albertino que eu gostaria de encontrar, aos sessenta, numa dancetaria daquelas que ainda existem. O Albertino sabe dançar, não tenho qualquer dúvida.  Diz-me que, dentro do carro, é motorista, conselheiro, psicólogo, juíz e padre.  - padre? - pergunto eu.  - sim, sim, que isto às vezes é um confessionário!  Chegamos. O vento força a porta, eu agradeço e saio, não sem antes dizer: - sabe, Albertino, às vezes também me irrito. Demasiadas vezes. Cada vez mais.

Variações (s)em dó maior

Pela manhã, acordamos sobre o efeito de um documentário "Netfixe" visto na noite anterior e somos "pro-qualquer-coisa-saudável-sem-carne-100%ambiente-cool-movimento-inclusivo-cultura e arte", vamos trabalhar para organizações VUCA, mas sem poder ir a pé ou de transportes; depois, na cantina até tem uma picanha mal passada, logo agora que também tínhamos aderido às manifestações contra a desflorestação da Amazónia e já partilhámos mais de uma dezena de frases idiotas do presidente que justifica as suas accões em discursos para nações que não têm nada de unidas; à tarde já nos enviaram um artigo sobre a manipulação de informação, ficamos meio perdidos sem saber se as eleições são manipuladas, se somos de direita na razão e da esquerda no coração ou vice-versa, se a picanha faz ou não faz mal. Então chegamos à noite e vamos ver outro documentário que possa esclarecer todos os meandros cinzentos deste maravilhoso mundo do ser ou não ser algo, do estar e não estar info…