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Todas as coisas maravilhosas

O alçapão. 
Esse momento em que o medo ou a certeza de que algo vai correr mal nos invade e ficamos ali, imóveis. Ou talvez não.  Ou sentimos o tal arrepio, não tão semelhante ao que ele sentia quando ouvia Elis Regina. Ou quando eu ouvi "a gente vai continuar" do Jorge Palma, pela voz crua do Ivo.  Talvez essa seja uma das coisas maravilhosas dessa lista. A música do Palma. Acrescentaria, o mar. Em tudo o que dele podemos sorver com os cinco sentidos. E um sexto, para o chorar.  Uma lista que começa em gelados e vai até um milhão de possibilidades. Eu diria que é infinita.  De criança até adulto, até se reconciliar com essa própria lista, já depois de perder quem nunca se interessou por ela e de amar quem mais vida deu à mesma.  Retive o número trezentos e vinte. Porque acabei o dia com uma discussão feia e pedi desculpa no final. Não será tanto o pedir perdão depois de uma zanga mas é o mais próximo daquilo que é reconciliador. Morte, suicídio, dor, tristeza, família, alegria, ti…

O trezentos e dezanove

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Uma casa numa rua direita >> 11.01.2019
O 319 é numa rua que termina na pequena enseada onde atracam veleiros. Foi naquele recorte de escuridão em frente à areia, que me detive a pensar na única noite que passei ali e todas as outras em que fui ver se o barco estava bem.  Olhando bem, as cortinas desta casa lembram-me outros véus da existência. Mais ou menos divididos, cicatrizados, feridos, havemos de cobrir com algo que não deixe ver para o que ainda está mais esventrado.  Não o escondemos, porque as cortinas abrem, deixam passar a luz e conferem sobriedade no meio da confusão. 

O filme. E ele.

Roma, o filme. Uma sucessão de desgraças mas sempre com um pequeno detalhe de salvação. Entre o choro e o riso. A união e a separação. Em planos longos, bonitos e bem captados. Pedaços de história de um ano de um país, de uma família, de uma vida, que é, no fim de contas, a salvação de várias. Os aviões nos céus, aquela rua com a fanfarra a passar, o Borras (como eu gostaria de o ter resgatado! ), os livros que ficam e as estantes que vão, a Cleo que é heroína porque só ela encontra o equilíbrio quando salva os outros e se salva a si própria. E ele. Essa personagem universal sobre quem gostaria de ter escrito da última vez que fez as honras da minha rua. O amolador de facas, na sua autentencidade universal de figura que vem devolver algo bom depois da cena mais marcante do filme. Aquele assobio que é um cordão de ligação a todo e qualquer mundo que seja a nossa identidade.

Noção de tempo

Foi no dia trinta.  A senhora falava para o jornalista em frente à entrada do estabelecimento prisional de Lisboa. A cadeia, como sempre lhe chamei. Falava do seu filho e das queixas deste em relação às condições dentro da prisão, reflexo das greves dos guardas prisionais. Não demorariam as piadas e eu pensei que, noutra ocasião, teria eu própria ironizado com a situação. Mas lembrei-me de quem lá está que não me é anónimo. Lembrei-me daquele rasgo de infância, do dia em que fui à pesca na foz do rio como a única imagem que poderá sobrepôr-se ao desprezo, à vergonha e à tristeza. Lembrei-me de todos aqueles com quem trabalhei ligados a esse mundo de contraste, entre a culpa e a libertação. Lembrei-me do dia em que fui a uma reunião ao Linhó para ali jurar que não voltaria para conversas delirantes. Era dia trinta e eu já repetira vezes sem conta que 2018 passou muito rápido. E lembrei-me dele, mais uma vez. E da contagem do tempo atrás de uma cela. O tempo num calendário de remissão e pe…

Para ti

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Santuário de Fátima >> 05.01.2019

Pedi-te para nos sentarmos ali, nas escadas voltadas para a cruz alta. Naquele recinto já entraram todos os choros, todos os medos, todas as alegrias, todos os males, todas as histórias. As nossas e as dos nossos que por ali passaram. Dos meus, pelo menos. Lembrei-me de outras praças. A de S. Pedro, em Roma, ou a praça em frente à Catedral de Santiago, no dia em que me deitei sobre a mochila a contemplá-la. Nunca pedi nada, em nenhuma delas, porque trago uma lição desde muito pequena, firmada num ato de contrição. Estamos ali. Oiço-te. Penso na tua história, na tua batalha. E carregas tanto, caramba! Mas em bom. Haverá ciência que explique, mas também há essa tua indomável natureza. 
E é bom estar ali, contigo, nesse "silêncio" de reconciliação, de agradecimento, de contemplação, pese embora tudo o que tenha sido a tua vida nos últimos meses. 
Fazêmo-lo com as nossas verdades interiores e os nossos credos. Que não têm de ser iguais, mas qu…

Início

Quatro e vinte, em horas.
Está uma noite fria e eu estou no varandim do casino. O vestido negro de veludo aperta-me. Poiso o copo naquele rebordo do pequeno querubim de acrílico e tiro os sapatos. Lá de dentro ouve-se a banda a tocar aquele soul de Philadelphia. Há risos abafados, foguetes que ainda estoiram lá longe. As horas avançam, em todas as festas desta noite que abre os dias todos que virão. Nada de novo nas mensagens, nos contactos. A palavra feliz, já gasta. Os pés vão gelando. O silêncio deste varandim que desejei ser para um tango. É então que se abre a porta e eu acordo desse casino de Bellagio.  No início da primeira madrugada do ano.

Sobre o 30.12.2014

Estava naquela abóbada de luz do aeroporto de Lisboa, junto às lojas e aos cafés. Abri o livro "Não se encontra o que se procura", do MST e aquele parágrafo fez-me sentido. Horas antes, uma despedida de encurtar os minutos e de abrir um fosso de dúvidas. Li aquele parágrafo e lembrei-me de "Quero é viver" do Variações, mas na voz do Camané. Voei para Berlim, onde uma noite fria com neve me esperava. Arrastei a mala pesada vários quarteirões e pedi ajuda à polícia. Cheguei ao hostel, dormi num quarto lotado de gente que nem cheguei a ver. Na manhã seguinte a água do banho era tão fria que talvez aí tenha dito que não dormiria mais num hostel.   Não veio a A. mas vieram os outros e mudamo-nos para o hotel familiar junto do Parque. Nos desejos do 31 todos quisemos tanta coisa, uns procuraram, outros simplesmente entregaram-se ao que estava por vir. Passaram quatro anos, desde aí eu voltei a dormir num hostel, escrevo com mais certezas projecções em vez de projeções, …