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[ carta II ]

Vicente está num boteco, junto ao Largo do Guimarães, em Santa Teresa, do outro lado do mundo, de máquina fotográfica vintage a tiracolo, enquanto espera pelo grupo de turistas com quem vai descer, até ao coração do Rio. Conhecera Sofia numa dessas tours quando ela viajara em medos pela primeira e, até ver única vez, para a sua cidade. 
Os seus dias são como a incerteza das balas na favela. Ora sobe ao Morro dos Dois Irmãos, em rota de pobreza desvendada, ora ajuda o pai nos mil ofícios que as solicitações obrigam. Aquela colina de caixotes em tijolo bruto, que ao anoitecer é vista da baía, é um ponto de luzes, é desordem sem progresso. Não cabe, sequer, nas políticas de aberração firmadas de geração em geração. Mas é de lá o coração do Vicente, daquela luz de fim de tarde que ele capta no cimo do Vidigal e faz chegar ao mundo, com adenda de hastags.

- Tinhas-me dito o ano de 1935, correcto?  - Sim. E aparentemente coincide com as pesquisas que eu tinha feito na internet. 
Vicente promete…

[ carta I ]

Estava sozinha numa das mesas do café com longas cortinas de veludo grená. Pediu um chá e ainda hesitou ao apontar para o bolo de chocolate e noz, da farta boleira de imitação de cristal. Sofia carrega em olheiras o vazio e a ansiedade das últimas semanas. Não sabe como vai pagar a renda do pequeno anexo da ladeira dos jacarandás, nem todas as coisas que passaram de necessárias a supérfluas. Poderia existir, apenas. 
Ver o mundo através de uma vitrina sem lembretes para as contas mensais, sem as viagens que os amigos programam e com quem nunca pode ir, sem os livros que ficam na lista de um futuro que não chega, os concertos que enchem salas onde nunca vai procurar um lugar de coxia. Aquele sentido de fracasso que nunca faz por ser breve.  Mas Sofia sabia disto quando, naquela coragem disfarçada de medo, se despediu do trabalho que tivera nos últimos quinze anos. Nesse dia, foi ela mesmo liberdade, disseram uns, loucura comentaram outros. Agora estava ali, de caderno de notas na mão, sem …

Ao menos elas

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Uns meses apenas e os carreiros estreitam-se, vencem o mato e a carrasca florida, escondem-se as rochas e já hesito se é por um lado ou pelo outro. E paro para ver o mesmo mar que terão visto os Gróvios, também eles já uma mistura de Celtas e Iberos, os Suevos, os Sarracenos e muitos outros povos invasores que fizeram a sua passagem por aqui. E se não foi assim, que tenha sido como cada homem que estudou a história tenha interpretado os achados, e os escritos.  Por agora, recuar-se-á décadas em código civil e de direitos humanos, se alguma vez os avançamos, num século que tem todos os meios à disposição para fazer melhor, mas acabará apenas a sangrar nas ruas. E no final, ficam elas - as rochas carregadinhas de musgo.

Memórias do Sr. Joaquim

Passaram doze ou treze anos. Eu vivia numa casa húmida, não tinha vizinhos de prédio, com umas escadas que me faziam desistir de carregar qualquer coisa, onde nem o bonsai se habituara, acabando por despir todas as suas pequenas folhas, tendo sido já tarde demais para o salvar, quando dali decidi sair.
Em Maio, por altura das peregrinações a Fátima, o senhorio abria o espaço inferior do prédio, que nunca terá cumprido as suas funções de espaço comercial, e recebia peregrinos. Pela proximidade da N1, em várias semanas muitos eram os que se deitavam em sacos-cama ou colchões improvisados e descansavam, ligavam às famílias, curavam as feridas, embora muitas delas nunca tenham parado de sangrar. 
Por esses dias, e enquanto ajudava as pessoas a acomodarem-se, apareceu o Sr. Joaquim, mais de sessenta anos feitos, fanfarrão nas suas primeiras palavras, o corpo em mazelas visíveis e tudo o resto um misto de comédia e tragédia. Quando o ajudei a sentar-se e a tirar os ténis e ele fez-se em silên…

Mr. Miyagi

Tantos poemas esta semana e nenhum sobre os gatos que acordam às seis da manhã ou sobre os homens com motorroçadoras que abrem os sábados em zoadas vespertinas. Oito e vinte, os céus de negro, nessas manhãs em que queremos café e bolos e não perdemos essas ideias mesmo quando as calças apertam em tudo. Desci à minha rua direita com a foto da Isabel na minha cabeça (um beijinho a ela). Não pelo traçado de km que ela fez, porque está longe a minha actual audácia, mas por essa liberdade de sair em direcção à Carvalha, descer o rio, chegar à foz, seguir pelo caminho dos cactos para depois cortar pelas dunas e parar a meio, para ver esse mar que nos rouba fôlegos e metros de terra. Sigo para o parque, onde ainda não há hordas de romeiros. Vejo os patos sem água nos lagos, desorientados que estão, cruzo-me com os que correm suados dessa missão que já deve ter começado às sete. Aquele senhor de jornal numa mão, máscara na outra, só não trouxe guarda-chuva. Devolvo o sorriso ao polícia que me apa…

janela #18

São as dezasseis e quarenta e sete. Assim, em palavras que os números ferem-me a vista. Eles correm com as trouxas às costas e cruzam o jardim dos prédios em frente. Não é a primeira vez que os vejo. Saem da obra da qual vejo os avanços há mais de um mês e lutam com os escassos minutos que têm, contra a pontualidade do autocarro que passa nesta rota. Pergunto-me para que ponta dos arredores ou da cidade irão. Quase nunca apanham o autocarro, porque quase nunca aquele sprint é suficiente. Mas nunca os vi em passo demorado ou vagar de cansaço de mais um dia de trabalho. Correm para chegar. E eu poiso os olhos no computador de novo. Porque a minha corrida é numa estafeta de burocracias, legalidades, cálculos, prazos e muita desorientação. E afinal, neste tempo que já vai longo, quantas corridas se perderam, quantos autocarros não se apanharam, quantas viagens de comboio ficaram por fazer, quantos voos se perderam, quantos abraços não se deram, quantos beijos se omitiram, quantas visitas…

Crusoé, revisitado

Naquela manhã, dois dias depois da tempestade, Crusoé descera à orla da ilha, sozinho, para colher fruta das árvores. À medida que se ia embrenhando na vegetação percebia que os ventos tinham sido mais fortes do que os fizera. Os fetos derrubados, as grandes clareiras abertas à mercê do céu azul e sem réstea do negrume que foram as últimas horas.  Quantas tinham sido as tempestades ao longo desses últimos anos? Deteve-se com aquele fruto espinhoso e verde, de polpa doce, na mão, a pensar que em cada uma dessas noites que os céus rasgaram fogo se sentiu mais próximo de algo novo que estava por vir. Como uma renovação anunciada, sem que fosse certo que estivesse vivo no dia seguinte. Já não tinha medo dessa natureza enfurecida que roubava o silêncio daquela solidão que escolhera.  Absorto nos seus pensamentos não se apercebeu daquele restolhar, mais abaixo já onde a areia escalda e se acaba o verde. Assustou-se com aquele corpo moreno, esguio, meio nu. Crusoé aproximou-se, ainda o cora…