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O nome, talvez

Vi-o ao fundo no pequeno souto dos castanheiros e desde logo me pareceu uma figura interessante. Vestia calças de sarja azul vivo e uma camisa florida, pouco comum. No conjunto parecia que aquele homem rodava uma cena à Almodóvar. Vestia umas luvas e descaroçava as castanhas dos ouriços com uma pinça metálica, juntava-as para uma pá também ela de metal e depois deitava os frutos num balde. Disse-lhe bom dia e parei perguntando se tinha muitas castanhas. Parou e sorriu. E ficámos à conversa. De onde vinha, porque fazia o caminho sozinha, quantas vezes ele visitara Portugal e de apenas conhecer a cidade do Porto. Não lhe perguntei o nome, mas num filme isso seria compensado por aquela cena única, em plano quase lento, aquele homem de sorriso largo , roupas vistosas, um adeus numa fotografia perfeita.  Talvez fosse Joaquin. 


Às dezanove, do dia dois

Eu fiquei ali, de pé, a olhar para a hora doirada a despedir-se da catedral.  E primeiro veio um casal, depois outro e outro pedir para tirar uma foto. E eu não consegui sequer dizer que também gostaria que me tirassem uma foto. Então veio ela e pergunta "where are you from?“ e se me pode tirar uma foto. E para eu pôr um "ar feliz ". Talvez fosse dos pés que gritavam ou de toda a euforia que girava à minha volta, como um vídeo 360° que atravessaria o mundo até à Ásia, ou a foto de grupo daqueles ciclistas de Portugal, ou os Italianos que dançavam à voltas do freak da guitarra que tem o mesmo show há décadas. .. Talvez fosse de tudo isso que era, e é, no fim de contas, um enorme vazio. Não saiu uma "happy face". 



Richard W.

Despediu-se do amigo que virou na direcção do albergue e apanhou-me a fotografar o marco dos 42km. Seguimos durante aquela longa recta até ao hotel junto à estrada. Do Canadá para Portugal e depois para a Galiza. Fala-me das particularidades da língua galega, de como aprendeu palavras em Castelhano lendo livros já depois de reformado. Ainda teve lições, uma vez que decidiu visitar a América do Sul durante três meses. Mas Richard diz-se velho para aprender a falar fluente uma nova língua e a fazer mais do que 25km num dia.  Entretanto, lá vai do alto dos seus dois metros, olhos verdes profundos, contando como temos uma grande comunidade portuguesa em Toronto. Quando lhe digo que, provavelmente, estamos em toda a parte do mundo muito fruto da nossa história como colonizadores e de como não devemos esquecer isso, diz-me que o primeiro ministro do seu país passa a vida a desculpar os últimos vinte anos quando, na verdade, devemos é pensar no futuro. Que homem é este que numa nacional gal…

29.09.2019

No dia 29 cheguei a Pontedeume e dormi numa pequena pensão numa das ruas paralelas à Rua Real. Ou melhor, não dormi. Não tinha forma de estar porque o corpo reclamava a mochila e contei as horas até que fosse dia novamente.  Já tudo me aborrece, não consigo ler, não consigo escrever, não consigo ver o que o mundo mostra. Já tudo me parece conhecido sem nunca, afinal o ter vivido. Não sei onde é, afinal, o fim desse lugar onde chegarei com mais sono mas mais aliviada de dores.

Duas coisas

Não importa a hora a que se vá. Serpenteamos vila abaixo num vagar, ora atrás dos ciclistas, ora a travar bruscamente porque os carros da frente descobrem esse verde que a Serra ostenta. Já é Setembro e mesmo com as metereologias às avessas, os plátanos já soltam as suas folhas doiradas que vão secando à mercê da passagem do eléctrico.Vejo a cúpula do Palácio, a fazer-se de pintura de museu e lembro das noites que ali passei apenas para ver aquele vermelho vivo das luzes a contrastar com o breu. Quase sempre eu descia por ali para ver apenas duas coisas: aquelas cores e o mar de inverno. E de ambas continua a ter saudades.

[Outros] onze de Setembro

Contornei a rua e a azáfama de carros e pessoas denunciaram a reabertura do ano lectivo no real colégio. Tudo é real ali, a começar pelo modo como os pais estacionam os carros para deixar os filhos na escola.
Voltei aos dias em que fazíamos o caminho a pé para a escola primária quatro vezes ao dia e sempre descobríamos algo de novo nesse percurso. Uma fuga pelo souto, pela capela da quinta, ou pelas cavalariças anexas à casa do poeta, quando os cães rendiam a guarda dos enormes portões verdes. Na escola, as carteiras de madeira riscada, aquele cheiro de conforto a livros novos e a lápis de cor quando se abria um estojo. A excitação do que viria, das páginas seguintes, dos lugares que ocuparíamos na sala, do nervoso das fichas a preto e branco que completaríamos, da D. Neves que nos ajudaria a mudar as roupas molhadas quando chegássemos a pingar dos pés à cabeça, dos pacotes de leite com chocolate com aqueles bonequinhos desenhados e sem proibições de açúcar, do único recado que iria pa…

Às duas da tarde

Aquela romaria de gente a passar na passadeira, a entrada caótica para o mercado, o lixo acumulado naqueles caixotes a gritar vergonha alheia. Ainda não ouvi falar português tirando aquela canção que vem da praceta e é na língua do gerúndio. Namorados na relva, de olho nos cães, as barraquinhas de pechinchas hippies à venda e o sol de Agosto a queimar enquanto sigo atenta ao buliço, às trotinetes e a tudo que se interpõe. E é então que o vejo, nesse cigarro das duas da tarde na sombra da esquina do prédio. Tem o olhar de que o sol de Agosto também o queima, mas por dentro. Olho-o para o ver, porque é figura de proa naquela esquina de janelas altas, paredes renovadas de arquitectura milinonária. Fica-lhe bem a jaleca e aquele momento em que ganha fôlego de olhos fechados, alheio a toda a cidade.  Ficava ali a vê-lo fumar.