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Drucker numa foto

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Sem o saber ele fotografa uma frase de Peter Drucker. A D. Lídia (vou chamar-lhe assim) entra e sai da soleira, óculos escuros largos na cabeça e a fumar o seu cigarro. O seu marido, amigo ou amante cola o cartaz na parede, de onde o tirou no dia anterior, provavelmente. Breves instantes depois já a conversa rola, com fila à porta. Esta D. Lídia lembra-me a outra D. Lídia de Campanhã. O único sítio onde pago para ir à casa de banho porque cheira a lavado, tem uns antúrios vermelhos lindos e viçosos e quase sempre Camané a passar na rádio. As Donas Lídias são mulheres de feições determinadas e são quase tão explosivas quanto a mistura de lixívia e lavanda que evocam. Não têm papas na língua, não cedem a facilitismos (para os trocos) mas ainda vejo nelas muita ternura. E uma boa dose de coragem.
WC Toilette 1€ ou "Onde quer que você veja um negócio de sucesso pode acreditar que ali houve um dia uma decisão corajosa".




Na Bica, um abraço

Ela estava na esquina da Rua de S. Paulo com a Calçada. Olhava em redor, algo inquieta e talvez mexesse em algum fio que tinha ao pescoço, na tentativa de encurtar os minutos. Ele veio, a descer a rua, sorriso largo e fechou o tempo naquele abraço prolongado escondendo-a no seu corpo maior, silenciando a música em batidas, a confusão, os encontrões, os copos a entornar a cerveja, a multidão.
E olhou-a, disse-lhe algo ao ouvido e ficaram ali, num corpo só, breves instantes para o alvoroço ébrio e um pouco mais do que nada para eles.

Tanto e tão pouco, naquele abraço.

Às mães

À mãe da R., do J., às nossas, às que estão presentes neste dia e às que já partiram.
Às mães de sangue e às mães de coração. Às mais atentas ou àquelas que nem sempre o puderam ser. Às mães modernas e às mães conservadoras. Às mães jovens e às que já são avós. Às mães dos que nasceram sãos e às mães dos filhos especiais. Às mães no presente e àquelas que ainda o vão ser.
A todas as  mães e ao amor delas. Que é infinito, desmedido, cego aos nossos defeitos e não virtudes. 
O amor de uma mãe nunca acaba. Mesmo quando não somos os melhores filhos elas estão lá para arrancar à memória os dias em que éramos indefesos e adormecíamos no seu colo, de mãos pequeninas agarradas ao regaço. As mães, sempre que se desiludem vão buscar essas memórias. Quando se olhavam ao espelho de barriga grande e pesada, do primeiro choro, a primeira papa, os primeiros passos, os primeios sorrisos e as primeiras palavras. As mães resgatam o princípio de tudo, O porquê de quererem ser mães. E o quanto difícil i…

O cinema

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A primeira vez que fui ao cinema foi ao S.Jorge. Estávamos no 6º ano de escola e a maior parte de nós nunca tinha vindo a Lisboa. Desses dias, levei a grandeza do Tejo e dos principais monumentos da cidade, mas saber que existiam pipocas salgadas não ficou em desvantagem.

O filme era o Mrs. Doubtfire (Papá para sempre) e foi naquele momento em que o Robin Williams vestido de ama, apagava o fogo do peito com os testos das panelas, que o Padre Justino e nosso professor de História terá pensado que foi má ideia organizar aquela visita de estudo.

Era o riso, o despropósito, a euforia da novidade.

Vou muitas poucas vezes ao cinema, mas de todas as vezes que o faço regresso um bocadinho ao dia em que entrei no S.Jorge.







Para o ano

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Passou um ano e eu voltei a não ir à capela de S. Gonçalinho mas as cavacas vieram até Lisboa. Não estou certa que qualquer rogo ao santo produzirá o seu efeito a esta distância mas, nesta ida aos Correios lembrei-me destes dias ter visto o Robles a falar sobre o assunto, em directo da Rua da Palma a propósito do encerramento de mais um ponto dos CTT, sem aviso.

Na altura não lhe prestei atenção, até porque os seus olhos verdes não me deixaram mas pensando no assunto, o conceito de proximidade é muito relativo.

Para chegar antes do encerramento do balcão de residência tive de me deslocar de carro e, por isso,  sair do trabalho em horário que nem aqueles que fazem 35 h por semana conseguem. Depois demorei-me 30 minutos à procura de um estacionamento não pago (que não consegui), estacionei em segunda fila de modo a conseguir alguma animação sonora no bairro e por fim, tenho de sobrepôr um "boa tarde" à questão em tom de raspanete "ainda não assinou o aviso?".

Por mi…

A vida dele, talvez

Ele olhava para o telemóvel como quase toda a gente que seguia no metro. Se o mundo acabasse naquele momento eu não conseguiria cruzar um olhar com ninguém.
Tinha cabelos compridos desordenados, barba não muito aparada, vestia calças rasgadas, um casaco verde tropa e tinha ar de artista. Com ele, uma pequena caixa gasta.
Perguntei-me em que rua teria estado a tocar, quem foram as pessoas que lhe deixaram uma moeda, quanto teria ganho durante o dia, onde viveria, onde iria estar no dia seguinte e no outro e quais as músicas que gostava de tocar. Onde teria estudado música (se o fez) e quais seriam os seus sonhos.
Pensei que, se saísse na mesma estação, talvez o pudesse ajudar a levar os amplificadores.
E então levantou-se, a pequena garrafa de água caiu, eu hesitei para a agarrar, olhou-me e sorriu. Um sorriso luminoso. Com muita calma segurou todas as tralhas e saiu.

Ficou por perguntar se era de um violino, aquela caixa. A vida dele, talvez.



O frio (nos museus também)

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Eu não me queixo do frio porque é uma coisa natural. É certo que se viessem os - 39 graus da costa leste Americana morreríamos todos e o facebook fechava com a quantidade de fotos de termómetros que íamos partilhar.
Eu queixo-me do que temos de pagar para manter as casas quentes e compreendo perfeitamente a EDP quando se recusa a pagar a taxa extraordinária de energia ao Estado. Aquilo é uma pipa de massa, tal como a última factura da luz que recebi depois de ter ligado o meu querido Becken. 
Ele nem teve tempo de dar todos aqueles estalinhos próprios de um aquecedor a óleo. O meu peso na consciência era tal que o desliguei dez minutos depois. O suficiente para que os dígitos rodassem naquela factura acompanhada de uma carta simpática com a informação de que os preços vão ser actualizados. Eu nunca vou entender aquelas facturas, nem mesmo se tirar um doutoramente em física quântica. Se há pessoas que não compreendem os seus recibos de vencimento pela complexidade de rúbricas e de lin…