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A mostrar mensagens de julho, 2022

#terminar

 Os telhados das casas que começaram a ser construídas na pandemia continuam ali, com ervas daninhas.  Não voltaram os homens a trabalhar debaixo do calor e do frio mas a obra parece não ter terminado. Uma obra milionário com chave na mão de gente pobre.  Lembrei hoje desses dias de azáfama. Talvez  mais para mim, na janela, do que para eles entre gruas, muros e argamassas. É capaz de ter terminado. A pandemia ou a obra?

#nãoesquecer

Esqueço a sopa do jantar no microondas e fica para o pequeno-almoço do dia seguinte. Combino coisas que estão semanas inteiras trocadas no calendário. Tento lembrar-me do nome das pessoas e não consigo e então vou à procura, anestesiando essa angústia que é não controlar esta amnésia crescente. Escrevo lembretes digitais, envio emails com "flag" de "follow up", espalho papelinhos pelo ecrã do computador,  pela porta do frigorífico, na janela da cozinha.  Sei que vou esquecer. Sei que vou falhar. Sei que vou ter aquele susto momentâneo.  E, no entanto,  o mundo continua a existir se eu me esquecer dele.

#síndromededomingo

  Às vezes sublinho frases ou parágrafos dos livros que leio, com essa esperança tonta de um dia voltar a eles para os reler. Ou para simplesmente os tentar memorizar, como se a minha memória não fosse ela tão trémula como o risco do lápis que faço. "Como falando a partir do vazio, do nada, Watts diz que quase todos os humanos chegam a velhos sem se terem apercebido de que " a vida é algo musical, algo para ser cantado ou dançado"". E no entanto, a vida são os dias com aquelas horas que registamos num software de afazeres, tantas vezes carregadinhos de incertezas, de medos e bloqueios que me consomem cada vez mais. E super diligentes lá prosseguimos imbuídos cada qual com a sua missão e se olharmos para o mundo à nossa volta percebemos que estamos todos a falhar redondamente. E danço. E canto. E chegarei a velha sabendo mais do vazio do que de outra coisa qualquer. 

#memorando

  “ -Afinal, talvez não seja assim tão mau. Há infâncias que se devem esquecer, infâncias das quais é preciso recuperar.” Há um par de citações que gostaria de me lembrar. No momento em que as oiço penso sempre que  depois me lembro mas nem passaram duas horas e já  não me recordo o que foi dito ali, à média luz, com o som do piano e da guitarra a embalar aquela história de Momom. Há um certo descontrolo nisto, eu diria. Esta semana fui ao cinema ao ar livre porque tinha visto na semana anterior o trailer do filme seguinte e pareceu-me interessante. Passaram dez minutos do filme e finalmente tive certezas que já o tinha visto. Mas não tive coragem de me levantar porque,  na verdade,  cada cena era uma espécie de puzzle incompleto.