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A mostrar mensagens de Julho, 2018

Voltar ao Paul

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Eles vestiam t-shirts dos Ramones e cantavam Jorge Palma e Peste&Sida. Antes disso, vinte e dois notáveis enchiam o largo dessas doces memórias filarmónicas. Um largo tão pequeno e tão grande para tudo isto. Para reencontros, afectos e para essa certeza de que há momentos que fecharemos para sempre naquilo que sabemos sobre a amizade, as noites frias de Verão e a hospitalidade de uma terra chamada Paul.

Aquelas noites do ringue

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21.07.2018

Todas as vezes que se recupera uma estrutura na freguesia ganhamos em memórias.  Foi assim com o ringue de futebol, agora de cara lavada, com relva sintética, bancada arranjada e o símbolo olímpico mais novo do que nunca. Não vieram as noites quentes desses meses de Verão dos anos 90 (talvez 93??) em que as gentes se apinhavam naquele recinto, vindas de Forjães, Fragoso e de outras freguesias vizinhas. Nos jogos das mulheres quem mais alto gritava ficava na bancada ao fundo, onde caíam as faúlhas dos pinheiros mansos. Eram as mulheres de Guilheta e quase sempre ditavam as regras do jogo e o que se dizia ao árbitro e à sua mãe. Ao intervalo havia sorteio de rifas e foi aí a única vez que me saiu alguma coisa nos jogos de sorte. Uma garrafa de whisky que foi cobiçada todo o caminho até casa. Íamos em bando, a pé, e ainda não existia a via rápida nem todas as mudanças que ela acarretou. Esses torneios eram muito mais que futebol. Era a oportunidade de sair de casa, sob protec…

Do trail das Azenhas, todas as vezes

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Calor, muito pó, subidas intermináveis, descidas perigosas, o rio a desafiar-nos para um mergulho, quatro edições, duas que falhei, a primeira vez no trail curto e se o corpo me deixar, para o ano estou de volta.
Porque sempre que subo o monte da Guia e vejo lá do alto esta encosta castreja regresso todas as vezes a casa. Todas as vezes que parti e que não fiz nada por este lugar. 
Volto à infância e a todas as vezes que subi por estes caminhos estreitos, para ir à Capela da Senhora da Guia, todas as vezes que íamos ao mato lá para os lados dos Campelos, com o gado sofrido a subir caminhos dos quais hoje já nem sabemos o nome, todas as vezes que fui ao musgo à Cividade e à descoberta das velhas antas escondidas, todas as vezes que corri aos inícios de tarde, pelo Souto da Quinta, para os esconderijos, antes de regressar às aulas na escola Barão de Maracaná, todas as vezes que fui ao Minante tomar banho no rio sem medo da poluição, todas as vezes que atravessámos a ponte de Sebastião …

Aziúme

Começou pela manhã, no banco. Já tinha sido ontem mas como hoje tive de voltar, a história repetiu-se. 
- Tem de ir ao seu balcão, "tá" a ver? (dito a olhar meio para o computador meio para o infinito)
 Eu a ver estava, mas depois desta frase ceguei. Depois foi na loja onde se vende desde o secador de cabelo ao telemóvel. Quando me é dada a oportunidade de falar, ainda que não existisse contacto visual do outro lado, percebi que depois dali só haveria o caminho da meditação, junto ao sistema de senhas do serviço de avarias.
Depois foi, ainda, ao telefone, no que seria uma conversa normal mas que de tão azeda se mostrou que continuo sem perceber porque queremos ser tão diferentes em tudo e acabamos tão iguais (em tudo o que é péssimo, entenda-se). . Às vezes, sentimos frustração no trabalho, em casa, na vida em geral. Não gostamos do que fazemos, ou gostávamos de ter feito diferente. Não temos qualquer visibilidade, aquilo que produzimos diariamente nunca vai sair em revista…

Do clarinete para o saxofone

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A música era a "Manhã de Carnaval", naquilo que o concerto fez lembrar a Paquito. Mas nenhum de nós soube trautear a música do filme Orfeu Negro. E se nesta teríamos alguma desculpa, no Summertime foi mais escandaloso.  E no palco, setenta anos de respirar música entre o clarinete e o saxofone. E eu sempre me emociono com isto.

A Marilyn, o Lucky e ele

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Estava à porta e parecia sorrir. Imaginei-me a passear com ele, a afagar as suas brincadeiras, a descansar num jardim com ele deitado a meus pés. Ainda hei-de ter um jardim e um cão.
Chamei-lhe Lucky porque está à porta de um bar/restaurante sem que isso seja um drama, portanto, há algo de afortunado nisso.

Perguntam-me por "ele" e eu não sei quem se interpôs à foto. O meus olhos estavam no cão que sorria. O Lucky.

Três da tarde (sem o ser)

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Quando as horas não batem certo com o tempo. São quase três, mas o sol está a pôr-se. A desordem na ordem e como pensei nisto quando apontei a objectiva.

Quota de praia

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Uma semana inteira a ir pelo menos trinta minutos à praia e excedi a quota para este ano. Investimento feito nos protectores solares adequados de acordo com as maleitas de pele  e estaria tudo bem não fosse dar-se o caso de ter uma espécie de raia tatuada na coxa direita, em tons de vermelho. E o corpo mais ou menos dividido entre um bronzeado frouxo e o vermelho vivo. Penso agora como é que, outrora nas férias escolares, o tempo era dividido pelos trabalhos no campo, ao sol, desde manhã cedo até à hora de almoço e na praia durante toda a tarde. Sem protectores (um dia pagarei caro) e a deixar que no final do Verão fossemos doirados de pele a desejar novo Verão.




Jornal de domingo

Hoje é domingo e há vinte e dois anos que se compra o jornal lá em casa. Poderei dizer, um dia, que terá sido a única coisa boa que fiz por aquela casa.
O meu professor de economia do liceu, na altura, disse-me, já não sei a que propósito, que seria um bom hábito e eu convenci a minha mãe a dispensar os escudos para o Jornal de Notícias. Todos os domingos, mesmo aqueles em que não estávamos em casa. Na altura trazia-o o meu pai, da venda da Gabriela e, mais tarde, na sua ausência para sempre, trazia-o o meu irmão, da bomba de gasolina.
Ainda hoje é assim.
Com o Jornal vinha uma revista, a Notícias Magazine, cuja colecção estimável foi ganhando espaço, até ao dia em que tive de ir pôr tudo ao papelão. Comeram-se as capas pelo bolor e pela humidade da casa e não houve outro remédio. A revista acabou por ser sempre a parte preferida do jornal, tendo em conta que o JN era e é um jornal, na minha opinião, com demasiadas notícias locais votadas à desgraça.
O jornal de domingo era, no fim de…

O adágio

Estranhei o teu silêncio. Os teus modos e falas curtas. Mas nunca me passou pela cabeça o que me virias a contar no café. Ainda sem certezas, sem diagnósticos certos, o medo já chegou. E a dúvida e o pavor. Este é aquele começo de um adágio para cordas, terrivelmente triste, que nos fará chorar.
Ainda há dias te via naquela foto, de blusa branca, óculos espelhados e a sorrir. Tirada assim, descontraída e apeteceu-me dizer que a vida te fica tão bem. E fica. E não o escrevi já não me lembro porquê.
Mas a vida fica-te mesmo bem. E vai continuar a ficar.
Agora que olho para trás, nas nossas ausências de uma e de outra, penso que talvez os nossos últimos meses sejam o que melhor pode fazer frente a esse adágio triste e profundo. E repeti-los, para que no fim, não haja, senão mais do que lágrimas de alegria.

A B. de Odeceixe

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Segui a localização do restaurante e a Rua 25 de Abril parecia não ter fim. Passei pelo moinho ao fundo da rua, ainda mais bonito com a luz dourada do sol que se estava a pôr. O mesmo moinho que deu o nome às casas que ladeiam a rua que subi. O restaurante estava já no topo, com uma pequena esplanada com vasinhos nas mesas, parede de cor ocre e tudo muito moderno no seu interior. Um conceito diferente do que se vê na vila e apetecível para quem o frequenta: os estrangeiros. Aqueles que, quando vem a conta, confirmam com a menina se é mesmo assim porque acham que alguma garrafa de vinho não foi cobrada. A B. trabalha no restaurante, veste uma blusa riscada, tem os cabelos apanhados, caindo um ou outro dos seus bonitos caracóis. Os seus olhos claros debatem-se com o rosa do batom e foi num crachá que trazia ao peito que lhe vi o nome. Mas foi quando me recebeu e me atendeu que percebi que a B. estando em Odeceixe não podia ser dali. A B. era desenvolta, no jeito, no modo como falava co…

O senhor Leonel

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O sol ardia naquela descida para o porto de pesca da Entrada da Barca e eu vinha já com a certeza de que o meu corpo é, neste momento, aquela canção da Fafá de Belém: Vermelhooooo.
A puxar um barquinho para terra estava o senhor Leonel a quem saudei, perguntei o nome e se era pescador dali. -Se aqui tivesse uma cadeira mandava-a sentar — respondeu-me. Fez uma pausa, mostrou - me o balde com sargos, pargos e safios e disse que já tinha tido quatro barcos mas que agora só ia ali para se entreter.
Pergunta-me se quero boleia para Zambujeira, eu agradeço e arrisco a pergunta da idade. Ainda não acredito nos oitenta e três de vida e nos setenta de mar.






O lugar do artista

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A L. tem cabelos claros e olhos verdes e talvez os tenha herdado do avô.
O homem com nome de imperador e que fazia da praceta do miradouro de Vila Nova de Milfontes o seu império. O das paletas, enquanto pintava o rio Mira talvez, ou a declamar os poemas de Bocage. Imagino-o a admirar, tal como eu, aquele cheiro adocicado da figueira que ali está, portas meias com o castelo. Já devia existir, na altura. Estou certa que sim.
Hoje, quando ali estive pensei que faltava qualquer coisa.
Um artista cabe sempre em qualquer lugar.




Ontem, o fim do mundial para alguns

No Oliveira sofria-se mas também se ignorava o que acontecia dentro das quatro linhas.
De um lado nós, que fazemos voar cerveja ao golo de empate e, do outro lado, aqueles que aparecem apenas para aparecer, camisas da moda, discutem viagens, tendências, vêem fotos nos telemóveis, fazem planos sem gritar uma única vez "marca Cristiano, cara#%o!".
Para eles o mundial não acabou porque nunca começou.