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A mostrar mensagens de Novembro, 2018

Aos poucos, mais cidade

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Ainda acreditei. Ou tentei convencer-me disso. Que aquele espaço, paredes-meias com o colégio, já com um placard gigante a anunciar um empreendimento, ficaria ali, parado no tempo, no abandono das vontades e das decisões e seria sempre aquele pedaço de campo, árvores à volta daquele muro rural defronte da "minha" Rua Direita. Assim, intocáveis. Ao mundo da cidade.  Mas vieram as gruas, as máquinas, os contentores, os trabalhos sem dias de descanso. E eu fui, aos poucos, convencendo-me que aquela seria uma quinta diferente, de portões automáticos e câmaras de vigilância. Depois, as minhas atenções voltaram-se para aquela árvore de grande porte, junto ao muro e que, pela sua copa arredondada, me parecia um pinheiro manso. Mas um pinheiro não morre assim. E aquele, simplesmente secou. E todas as manhãs, sempre que curvava o carro ali, eu pensava que ainda restaria uma solução para aquela árvore.  Até a uma manhã da semana passada.  Os troncos amontoados junto ao muro disseram …

L' essenza

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E ela soltou o "ma Dio" a falar com as mãos e pareceu-me tanto o "ma che cazzo" que é impossível dizer sem gesticular. E eu voltei à Via Marzolo, à residenza Fusinato, voltei às aulas do professor Novaga que me fez comprar Calvino e lê-lo na sua língua e àquele dia no supermercado em que repeti que queria o creme de pesce quando, na verdade, era pesche.  Diz-nos que é do Norte de Itália mas, na verdade, é do mundo porque já esteve em mais países do que todas as pessoas reunidas naquela mesa.  Muda-se para Portugal no exacto momento em que conhece um lugar nosso. Fala-nos das nossas gentes com a mesma precisão que falamos de nós próprios. Aquela "precisão" carregadinha de enviesamentos e com aqueles padrões culturais que vamos atribuindo ao Norte, ao Sul e às Ilhas. Nunca ficará exactamente definido se mudou a sua vida porque se enamorou por esse lugar ou porque precisava de mudar a si mesma e sair do novelo de obrigações. É certo que essa combinação a fe…

Desde mil nove e troca o passo

Nos últimos dias ouvi, mais do que nunca, falar de mudança. E nunca nada me pareceu tão ausente de tempo. E aqueles textos do Kotter & Schlesinger que datam de 1979 e muitos outros anteriores. Amanhã continuaremos a dizer que vivemos num mundo em mudança porque, na verdade, é para isso que existimos. As pessoas e as organizações.

La Paloma

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Ele escreveu assim:
"A primeira vez que ouvi Tania Libertad tive a revelação das alturas de emoção a que pode levar-nos uma voz nua, só diante do mundo, sem qualquer instrumento a acompanhá-la. Tania cantava a capella La Paloma de Rafael Alberti, e cada nota afagava uma corda da minha sensibilidade até ao deslumbramento".
Está na página 199, na data de 29 de Outubro, naquele que é o seu último diário.
Não encontrei essa voz nua, sem instrumentos, de que nos escreve o Saramago e seria impossível senti-la como ele a ouviu. Porque a música descobre-se em cada momento e depende de nós próprios. Uma mesma canção, com a mesma letra e a mesma melodia abrirá mundos diferentes para aqueles que a ouvem. 



Três vidas numa garagem

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06:30
Confirmo os olhos rajados de cansaço no espelho do elevador e desço para a garagem. Quando abro a porta de segurança há luz em todo o piso e é então que a vejo. Farda vermelha, impecavelmente arranjada, aqueles saltos altos que não estando nos meus pés me apertam como se estivessem. Cabelo numa trança e a maquilhagem de quem vai receber um Óscar nos minutos seguintes. Dali a umas horas, o seu sorriso com batom vermelho será a sua ferramenta de trabalho algures no espaço aéreo. Será que sorri? Estou na garagem. Na mesma garagem onde me cruzo com o polícia simpático sempre que chego muito tarde e onde me cruzo com ela sempre que saio muito cedo. Às vezes é o contrário. Não chego a dizer-lhe “bom dia” porque já entrara no carro. Vou de sapatilhas, sem sensualidade apertada, o cabelo é a desordem do costume, o rimel dos olhos sairá assim que os esfregar em sucessivos bocejos. Levo sono e a consciência de que devo sorrir e fazer a diferença, como se de um polícia ou hospedeira se tratasse…

(Des)amor

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Quando esse fio de escuridão assoma, choramos escondendo a cara, com milhares de clarões a queimar por dentro, a rasgar esse mundo que era tudo mas vira raiva. Até ao dia em que, no silêncio, e como se nos levantássemos de um campo de malmequeres, sorrimos e não vemos nada mais senão esperança.

Marlon Williams no Lisboa ao Vivo - 17.11.2018

Chove e as maçãs...

Chove.
Já todos o disseram e já todos o escreveram.
Chove muito, eu saí de casa para comprar maçãs para cozer. E esqueci-me delas na pouca água em que é suposto ferverem.
Chove.
Tenho uma panela preta com restos de maça estorricada.
Poucos o fizeram, quase ninguém o escreveu.