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A mostrar mensagens de Abril, 2020

janela #18

São as dezasseis e quarenta e sete. Assim, em palavras que os números ferem-me a vista. Eles correm com as trouxas às costas e cruzam o jardim dos prédios em frente. Não é a primeira vez que os vejo. Saem da obra da qual vejo os avanços há mais de um mês e lutam com os escassos minutos que têm, contra a pontualidade do autocarro que passa nesta rota. Pergunto-me para que ponta dos arredores ou da cidade irão. Quase nunca apanham o autocarro, porque quase nunca aquele sprint é suficiente. Mas nunca os vi em passo demorado ou vagar de cansaço de mais um dia de trabalho. Correm para chegar. E eu poiso os olhos no computador de novo. Porque a minha corrida é numa estafeta de burocracias, legalidades, cálculos, prazos e muita desorientação. E afinal, neste tempo que já vai longo, quantas corridas se perderam, quantos autocarros não se apanharam, quantas viagens de comboio ficaram por fazer, quantos voos se perderam, quantos abraços não se deram, quantos beijos se omitiram, quantas visitas…

Crusoé, revisitado

Naquela manhã, dois dias depois da tempestade, Crusoé descera à orla da ilha, sozinho, para colher fruta das árvores. À medida que se ia embrenhando na vegetação percebia que os ventos tinham sido mais fortes do que os fizera. Os fetos derrubados, as grandes clareiras abertas à mercê do céu azul e sem réstea do negrume que foram as últimas horas.  Quantas tinham sido as tempestades ao longo desses últimos anos? Deteve-se com aquele fruto espinhoso e verde, de polpa doce, na mão, a pensar que em cada uma dessas noites que os céus rasgaram fogo se sentiu mais próximo de algo novo que estava por vir. Como uma renovação anunciada, sem que fosse certo que estivesse vivo no dia seguinte. Já não tinha medo dessa natureza enfurecida que roubava o silêncio daquela solidão que escolhera.  Absorto nos seus pensamentos não se apercebeu daquele restolhar, mais abaixo já onde a areia escalda e se acaba o verde. Assustou-se com aquele corpo moreno, esguio, meio nu. Crusoé aproximou-se, ainda o cora…

janela #17

Planeei e preparei tudo de véspera.
Fui ver se o carro pegava e se os pneus tinham pressão, descarreguei o mapa para poder aceder em modo offline, preparei a mochila com água, fruta e alguma comida. A pequena navalha para "afagar" nos momentos em que o silêncio invade a cabeça de medos. No livrinho onde religiosamente consulto os códigos PR, aquela subida à serra pelo vale já depois das duas aldeias, termina com uma vista sobre uma lagoa natural, reservatório das águas da chuva.  Pensei demoradamente sobre quais as alternativas de estradas a seguir para lá chegar, aquilo que diria caso fosse interceptada e sobre esse momento em que ficaria lá no topo, a repousar o fervilhar do corpo. Aspirei a casa, pus comida e água à Billy, o suficiente para alguns dias se algo corresse mal. Tudo como se com a ordem das coisas exteriores omitíssemos a desordem daquelas que temos cá dentro. E hoje, acordei bem cedo, vesti o impermeável, as botas de trekking e enquanto preparava o pequeno-a…

janela #16

Depois de fechar a casinha do lixo saio na direcção dos prédios de habitação social à procura de saber qual será a música que aquela outra janela faz soar. Entre o tradicional reggaeton e a música popular portuguesa, ainda não fui capaz de perceber em qual das janelas actua o DJ. Sempre que por ali passo imagino um tiro que me deixará deitada no passeio, junto ao prédio de construção mais recente. Porque é que as balas são quase sempre perdidas? É uma imagem muito aproximada ao sonho que tive em tempos, com o disparo feito do comboio que atravessa o passeio marítimo de Algés. Desde esse sonho e sempre que ia correr para aquela zona e o comboio passava, eu esperava por essa bala. Viro à direita, vejo que há já uma espécie de parque de estacionamento de carrinhos do supermercado, e reparo que todas as autocaravanas da empresa que opera num dos blocos do meu prédio e que tinha os veículos ali estacionados desapareceram. Segui pelo passeio, agora com um rol de dúvidas acerca daquele esva…

Lisboa

No bairro de Alfama, os elétricos amarelos cantavam nas subidas. Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos. Eles acenavam através das grades. Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho como um afectado "aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada e em cima, a uma janela, um homem, com um binóculo à frente dos olhos, espreitando para além do mar.
A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes. As moscas liam cartas microscópicas. Seis anos depois, perguntei a uma dama de Lisboa: Isto é real, ou fui eu que sonhei?
[ poema escrito em 1966 por Tomas Tranströmer, nascido a 15 de Abril de 1931, em Estocolmo. Tradução de Luís Costa ]

janela #15

Sempre que falo com ela, quase que poderia afirmar com exactidão as horas e os programas de TV que foram consumidos. Lembrei-me do Professor Basílio de Português que, embora não tenha sido meu professor, nos proporcionou momentos de aprendizagem marcantes. Na altura, ainda no ciclo preparatório, fez de algumas turmas a sua amostra para a tese de doutoramento. E o estudo era simples. Uma mesma notícia, e vários canais de informação, desde canais de TV à imprensa escrita, como é que cada um dava voz a essa notícia. E as diferenças e os posicionamentos, eram deveras percepcionados por nós. Ao cabo de uma semana a ler notícias todos nós tínhamos um meio ou canal preferencial e um estilo com o qual nos identificávamos mais. Embora, não fosse, de todo, esse o propósito do estudo. Nos lugares esconsos da memória nem um fiapo de luz sobre que notícias eram essas. Eram os anos noventa e bem que poderia ter ficado algo, mas nada. Tudo varrido pelo modo operandis da minha cabeça que é, basicame…

janela #14

Quando se poisa aquele doirado de luz sobre as gruas das obras em frente é quando eu bebo o café. Detenho-me no velho casario. Como se viver na cidade não fosse, afinal, a condição actual e o aglomerado de bairros e betão ao fundo, sejam um pedaço de adorno que não faz parte de Lisboa, nem daquilo que chamam a "área metropolitana" É feriado e tenho uma reunião às nove. Um dia igual ao de ontem e igual ao de amanhã. Verifico as mensagens e os emails e o que me dizem aqueles que ainda trabalhavam à meia-noite. No final, esperamos todos que o saldo seja positivo ainda que eu já faça o balanço de mim mesma. Insónias, pressão, o esgotamento de toda a informação. Não consigo ler uma notícia mais do que um parágrafo. Aborrecem-me as palavras, as pessoas, aquilo que toda a gente considera como uma lufada de ar fresco, uma novidade eu já estou entendiada e ainda nem abri, li, observei ou admirei. E depois todos aqueles que exigem que sejamos ainda mais zelosos, ainda mais extremosos…

janela #13

Era abril de um inverno por vir.  Começava assim a história, ainda sem tempo e personagens que lhe pudessem dar voz. Eu poisava a chávena de café nos lábios e de repente há um ruído no hall de entrada e eu desvio-me da janela e vou espreitar o mundo pelo óculo da porta.
O recuo da economia, o desemprego, as assimetrias sociais, a fragilidade do sistema de saúde estavam do lado de lá, a passar a esfregona no chão. Um mundo demasiado delicado para se aguentar até ao inverno da minha história.




janela #12

Escurece o céu, zanga-se o vento.  E ele tão só, na pracinha do prédio, rua da amargura e avenida das esperanças. A fumar, de roupão e sandálias. O cão de olhos tristes deixa o jantar no passeio.  Olhos no ecrã, atira a ponta do cigarro para o chão e não vê nada do que se passa no seu mundo exterior. Nada, na verdade. Os seus actos, apenas. Na sua via sacra em downloads de megas, subirá ao calvário do tempo fechado em semanas.  Qual é a sua cruz afinal? O sinal de rede é fraco, avança um pouco mais, que dali já está em dados móveis.  O cão de olhos tristes fareja o rasto do homem.  Será o único a não abandonar o alto de Gólgota.

janela #11

Às vezes a janela também se embacia demais.  Sobretudo nestas manhãs em que antes das seis não consigo deixar de pensar em tudo o que me espera aqui dentro. E penso naquilo que vou lendo. O "somos todos qualquer coisa" passou para o "vamos todos qualquer coisa" desde que não chegue ao calcanhar do nosso pé. Desde que consigamos gerir o mundo dentro das quatro paredes e não falte a granola bio ou os cogumelos frescos da quinta biológica não sei de onde.  Às vezes a janela também se embacia.

janela #10

Chove mais agora e eu penso naquilo que distingue uma manhã de inverno boa, de uma menos boa - o vagar de ficar na cama. E levanto-me, abro o estore da janela, esse óculo do mundo, e penso nessa remota possibilidade da chuva ser a solução, de lavar o que não podemos tocar, de criar pequenos riachos nas bermas das cidades e levar para as sarjetas profundos o pior dos nossos males. E pequenos leitos de água com aquela camada fina do pó das árvores somem-se para ficar tudo expurgado de insalubridade.  Ainda não passaram os três autocarros mais velhos e barulhentos e eu aqueço a água para o café. E as minhas manhãs parecem já retratos do filme "pára-me de repente o pensamento". Quantas catástrofes naturais estará o universo a alinhar, numa espécie de concílio, onde se ajustam contas e afina-se uma parte do planeta, para desiquilibrar outra, como se estivesse a afinar um piano até que o diapasão não mente? Quantas vezes, esta chuva normal que vejo da janela, jorrará em doses des…