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A mostrar mensagens de Outubro, 2019

Nem sabe, nem cheira

E foi assim que conheci mais um embuste das "indústrias variadas" - a geleia de marmelo. Andava eu rua abaixo e rua acima nas idas ao parque e reparei no marmeleiro da praceta Rainha D.Leonor. Verde, bem tratado e com fruto. E ainda me passou pela cabeça que pudesse vir a fazer algo com alguns dos marmelos  mas, regressei de férias e a árvore está despida. Não sei quem os colheu mas tomara que tenha sido aquela senhora de idade que às vezes está junto ao pequeno quiosque. A D. Clotilde que, não o sendo, assim mo parece. Tem ar de saber receitas  boas, com sabor, e não retirar açúcar em nada. Imaginei-a logo, com o tacho ao lume, procurando as tacinhas em que iria dispor a marmelada e a geleia, para depois cobrir com papel vegetal e colocar no parapeito da janela. Vejo-lhe a cor, a textura e o sabor e foi nessa ilusão que levei o frasco do supermercado para chegar a casa e confirmar que aquilo que comprei nem sabe, nem cheira a geleia de marmelo.

Ir

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Creio que levava o dorsal número 3596. Mas não estou certa. Ia em passo de marcha, junto à baía dos golfinhos e na sua retaguarda iam duas ambulâncias, um autocarro fretado pela organização e um carro de apoio. Seriam os ditos "carros vassoura" e que, por certo, lhe fizeram pressão a desistir.
Mas ela lá ia. Indiferente a tudo o que fosse exterior às dores físicas que levava.
Como ela, passaram tantos outros. Novos, velhos, mais em forma ou menos em forma. Equipados a rigor ou com uma velha tshirt oferecida em alguma prova.  A corrida é isso mesmo. Uma amálgama de gente, de vontades e de objectivos. E se hoje desistimos, amanhã vamos novamente. Nem que seja para viver esse desconforto de desistir. Mas ir.



[ A subir para o alto da Boa Viagem, 20 de Outubro de 2019 ]

Sessão errada

O som do violoncelo e a dança dele em frente ao espelho.  O único momento em que acreditei que o cinema poderia fazer algo por uma sala imberbe, teenager, ridícula, impregnada de estereótipos, que nunca saberá o valor do silêncio, do ódio, do amor, da violência e da loucura porque vivem nesse mundo do literal, do imediato, da qual nenhum tipo de arte é capaz de resgatar.

A F.

A F. tem 55 anos é uma de nós as três que subirá à montanha mas com uma particularidade: a vida da F. é, ela própria, uma montanha. De altos e baixos e com muitos picos, como essa montanha que se ergue diante de nós e que não é russa mas (e ainda bem) Asturiana. A F. propõe-se completar a rota mesmo sabendo que as suas condições impõem algum (demasiado) risco. Um cancro da mama vencido há cinco anos e agora o diagnóstico no fígado. Mas a F. não resvala no medo, na clausura que uma doença destas lhe poderia impôr. Ela vai, ri, dança, vive até que a dor física nos dias menos bons a fazem moderar essa força vinda não sabemos de onde. Como a força da água que desce a fenda da montanha. Não sabemos de onde vem mas, aos poucos, aproximam-nos da sua nascente.  A F. não gosta das subidas e, ao pé dela, não direi que levo um dos pés com feridas abertas. Porque o que a F. leva é maior que tudo o que podemos carregar. Em dor e em alegria. E isso foi a melhor surpresa que a ida à montanha me res…

Não há tempo

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O seu corpo branquelas a cair  a direito nas funduras das águas sujas do Douro. Vi-o, estava eu a meio da ponte e percebi que era um nadador experiente pelo tempo que levou até à margem. Reparei que fazia parte de uma filmagem e segui distraída pelo frenesim de turistas. Foi já na varanda dos restaurantes, onde as asiáticas posam a pele branca e luzidia em sucessivos flashes, que o viria a encontrar. Roupas a pingar, cabelo grisalho de uma meia idade avançada, tatuagens no antebraço, aquele sotaque cerrado a afirmar que há trinta anos não saltava. Por certo, não há tempo que mude um menino do rio. 


[ Ponte D. Luís, 08 de Outubro de 2019]

A resposta

Tudo o que possa descrever é imperfeito. Porque não lhe fará justiça à dimensão, às cores das rochas e do verde dos prados que se erguem irregularmente, à beleza das árvores que se equilibram no cimo da montanha que esperam os próximos nevões. O nevoeiro que poisa nos cumes daquela cordilheira irregular. O sol que, ora vem, ora vai.  Eles descem, de varas altas na mão, botas de montanha e fazem desse ciclo de muitos quilómetros a sua vida. São três homens. Não muito novos nem muito velhos. Dependem dos animais que guardam e é a vida daquelas vacas que defendem. O trajecto da rota é estreito e por isso nos apressam na passagem para que elas não se aflijam e não se precipitem declive abaixo. O tilintar dos chocalhos é agora o nosso metrómeno para que elas não esperem, não se desviem do seu regresso a Cabrales.  E entre esse murmúrio  do Cares que desce, fenda abaixo, em azul glaciar, o ruído dos nosso passos nas pedras soltas da Ruta, as cabras que se mostram à passagem, que as dúvidas…

O nome, talvez

Vi-o ao fundo no pequeno souto dos castanheiros e desde logo me pareceu uma figura interessante. Vestia calças de sarja azul vivo e uma camisa florida, pouco comum. No conjunto parecia que aquele homem rodava uma cena à Almodóvar. Vestia umas luvas e descaroçava as castanhas dos ouriços com uma pinça metálica, juntava-as para uma pá também ela de metal e depois deitava os frutos num balde. Disse-lhe bom dia e parei perguntando se tinha muitas castanhas. Parou e sorriu. E ficámos à conversa. De onde vinha, porque fazia o caminho sozinha, quantas vezes ele visitara Portugal e de apenas conhecer a cidade do Porto. Não lhe perguntei o nome, mas num filme isso seria compensado por aquela cena única, em plano quase lento, aquele homem de sorriso largo , roupas vistosas, um adeus numa fotografia perfeita.  Talvez fosse Joaquin. 


Às dezanove, do dia dois

Eu fiquei ali, de pé, a olhar para a hora doirada a despedir-se da catedral.  E primeiro veio um casal, depois outro e outro pedir para tirar uma foto. E eu não consegui sequer dizer que também gostaria que me tirassem uma foto. Então veio ela e pergunta "where are you from?“ e se me pode tirar uma foto. E para eu pôr um "ar feliz ". Talvez fosse dos pés que gritavam ou de toda a euforia que girava à minha volta, como um vídeo 360° que atravessaria o mundo até à Ásia, ou a foto de grupo daqueles ciclistas de Portugal, ou os Italianos que dançavam à voltas do freak da guitarra que tem o mesmo show há décadas. .. Talvez fosse de tudo isso que era, e é, no fim de contas, um enorme vazio. Não saiu uma "happy face". 



Richard W.

Despediu-se do amigo que virou na direcção do albergue e apanhou-me a fotografar o marco dos 42km. Seguimos durante aquela longa recta até ao hotel junto à estrada. Do Canadá para Portugal e depois para a Galiza. Fala-me das particularidades da língua galega, de como aprendeu palavras em Castelhano lendo livros já depois de reformado. Ainda teve lições, uma vez que decidiu visitar a América do Sul durante três meses. Mas Richard diz-se velho para aprender a falar fluente uma nova língua e a fazer mais do que 25km num dia.  Entretanto, lá vai do alto dos seus dois metros, olhos verdes profundos, contando como temos uma grande comunidade portuguesa em Toronto. Quando lhe digo que, provavelmente, estamos em toda a parte do mundo muito fruto da nossa história como colonizadores e de como não devemos esquecer isso, diz-me que o primeiro ministro do seu país passa a vida a desculpar os últimos vinte anos quando, na verdade, devemos é pensar no futuro. Que homem é este que numa nacional gal…

29.09.2019

No dia 29 cheguei a Pontedeume e dormi numa pequena pensão numa das ruas paralelas à Rua Real. Ou melhor, não dormi. Não tinha forma de estar porque o corpo reclamava a mochila e contei as horas até que fosse dia novamente.  Já tudo me aborrece, não consigo ler, não consigo escrever, não consigo ver o que o mundo mostra. Já tudo me parece conhecido sem nunca, afinal o ter vivido. Não sei onde é, afinal, o fim desse lugar onde chegarei com mais sono mas mais aliviada de dores.