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A mostrar mensagens de Março, 2020

janela #9

Aqueles breves segundos, a voz trémula e sumida, o silêncio que nos esmaga.
os números, sempre os números.
o zumbido da tv lá atrás, a esventrar o mundo. os números, sempre os números.
E os segundos demoram,
Nunca os senti tão longos.
Maiores do que os números.

janela #8

O dia cinzento deixa mais visíveis os pequenos pontos fluorescente dos coletes dos homens das obras. Continuam ali e eu deixei de contar os dias.  Da hora de verão vem-nos o dia mais tardiamente mas parece-me que os pássaros chegam mais cedo, a chilrear.  Na praceta em frente os homens da jardinagem cortam a relva. São uns quatros, naquele quadrado ladeado de prédios, onde suponho que a manhã tenha sido um despertar forçado com o barulho das máquinas. Em baixo, na rua, de leggins justas e corpos torneados lá vão elas, lado a lado, para a caminhada que já nem me importo de escrutinar.  O stayfuckhome não é para todos. É para quem pode e não faz e para quem gostaria e não pode.

janela #7

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Já o tinha visto na fila para o supermercado há uns dias atrás, nessa nova rotina das nossas vidas. Impaciente, ia e vinha tentanto manter as distâncias dos demais. Alto, cabelos longos, grisalhos e apanhados, com um ar de artista e de vida inconformada. Ontem, deixei o lixo e fui pelo descampado em direcção à Travessa das Azinhagas e depois pela Rua Direita.  A rua vazia e o largo sem a criançada a correr em desvario parecem um lugar fantasma. Na porta do dezassete há um bilhete que diz "se surgirem dúvidas médicas e de saúde, pode perguntar no número 24." Mais à frente na tasca, o bilhete tem erros ortográficos e o mesmo ar carcomido que o anterior. Na porta da capelinha escreveu-se "que deus nos livre desta peste". A todos o sol já comeu o vigor das letras no papel, mas talvez ali permaneça a tristeza de quem os escreveu. As obras prossegem e o casario cobre-se de um fino manto de pó. Ao fundo, na casa do Cesário, vejo a mesma figura do homem do supermercado. A…

A romaria

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Eram as duas da tarde e Manuel ajustava o chapéu de aba, apertava o último botão da camisa e sacudia o pó do casaco. O mesmo que não lhe desmerecerá o porte quando desembarcar no Rio uns meses mais tarde, depois de longos dias no mar. Espera por Viriato e Helena que descem a calçada. Ela toc toc, que as meias novas lhe escorregam nos socos, braço firme a segurar a cesta da merenda e ele com os mistérios escondidos em palha verga.  Já se ouvem os morteiros e eles vão listos, pela Rua Barão de Maracaná, pois querem chegar a tempo de ver sair o pálio.  Mais à frente, aquele corpo esguio curva-se, meio escondio por um farrapo preto e dispara memórias numa caixa de luz. São os Almeida, que ali estão. Os garotos posam assustados e nunca saberão que os seus  rostos tisnados pelo sol e aquela pontinha de ranho a chegar à boca farão as delícias das senhoras que param no Bazar Foto-Central, no Porto, para ver os retratos. - Agora nós - atira Manuel, enquanto a Helena esconde o cesto à foto.

Po…

janela #6

A mensagem dizia que a encomenda seria entrege no dia vinte e cinco e foi. Do outro lado, já se pode agora fazer ou atender uma chamada,  ainda que a minha mãe se queixe do modelo de telemóvel escolhido porque os "botões" não se vêem. Mas, a verdade é que à distância de um click, poder fazer chegar algo a alguém numa altura destas comove-me mais do que os vídeozinhos das mensagens de esperança de que o mundo precisava parar. Sim, precisava mas que não me parem os serviços de correio! No espaço de uma semana, fiz chegar livros e um telemóvel em tempo útil no meio de uma pandemia quando, no início de Dezembro, num daqueles dias em que um temporal parou o país, não recebi uma encomenda em casa e mais umas semanas se passariam até resolver o problema. 

janela #5

Saíam quase sempre à mesma hora do que eu. A carrinha de nove lugares, conduzida pela mãe (suponho) esperava que todos tomassem o seu assento. As raparigas altas, de meias até ao joelho e saias plissadas eram as primeiras a entrar. Depois vinham os rapazes, desfraldados, caras de sono, a arrastar as mochilas e de bola de futebol no regaço. Não me voltei a cruzar com eles. A família numerosa, como atesta o dístico que têm na própria carrinha. Imagino-os num monte alentejano. Jardim e terreno a perder de vista, onde os rapazes fazem a vida menos pacata aos lagartos, ao cão da casa e ao gato Tobias. As raparigas prosseguem assíduas no estudo, improvisam bolos na cozinha onde se dividem em tarefas na enorme mesa corrida. À tarde saem, descem a encosta da casa a nascente, e regressam uma hora depois com molhinhos de flores do campo. Não se lembram, sequer, dessas manhãs em que esperavam uns pelos outros na garagem de um prédio de Lisboa, com cheiro a tubo de escape.




janela #4

Testei aquele exercício do step na cadeira e voltei  a esticar-me no sofá.  A gata aninhou-se nas minhas pernas e recebo a mensagem sobre a tal app dos convívios ou jantares digitais. Mas o que se passa com as pessoas? Que angústia é esta de não saber ter cinco minutos de silêncio, de estar sozinhos entre quatro paredes?  E então lembrei-me do que se passou há umas semanas.  Contornei a Sé, no Funchal, desci a praceta, entrei na rua do restaurante que pesquisara na internet e chegada à porta do mesmo fui recebida por um empregado de bom ar, avental moderno que me estendeu o braço em frente quando lhe disse  - é para jantar, para uma pessoa. Subi as escadas de madeira, e entrei na sala ampla, de luz quente, com apenas uma mesa ocupada. Vi o ambiente rústico que convidava a ficar e o empregado disse-me que podia escolher entre as mesas de dois lugares mas indicou-me que poderia ficar na mesa central, que teria uma melhor perspectiva da sala. E o que se passou a seguir foi eu ter imagin…

janela #3

Da janela, lembro-me quando ia correr, e de todas as vezes em que pensei guardar a memória sobre aquela papelaria da esquina do prédio, umas ruas mais acima. Vai para quatro anos que cá estou e talvez tenha o mesmo tempo o meu fascínio por aquela montra, pela luz que permanece ligada toda a noite como se de um verdadeiro negócio activo se tratasse.  O prédio é moderno, em frente à escola, e por estes dias até lhe vi movimento no rés do chão, que aparenta ser os preparativos da abertura de um café. E mesa de bilhar terá, que já a puseram, junto à vidraça.  Entretanto, o sol continuará a roubar as cores dos postais que continuam no expositor da papelaria, das cartolinas de diferentes cores e tamanhos, das mochilas com bonecada que ainda dão alegria àquele espaço que parece ter vida e não ter. Chego, até, a pensar no cheiro a lápis de cor, se lhe abríssemos a porta. No cheiro das borrachas verdes, ou das brancas, que cheiravam a adocicado e dava vontade de comer.  Nunca parei, para espr…

janela #2

Ao sétimo dia.  Ainda pensei que eles repousassem as mochilas, não saíssem em barda da carrinha de caixa aberta e parasse a grua sobre os telhados do Lumiar. Mas não. Voltam a cada dia e eu acredito mais um dia. Hoje é a minha vez. Cheira a café e torradas no hall e tento desviar o pensamento dos objectos em que toco, para essa memória de outras manhãs, em que aquele cheiro inundava uma outra casa que não mergulhava em solidão. Desço a calçada, enquanto agora penso naqueles que já não perdem horas no trânsito e que vejo sempre quando vou no meu inverso. Estarão saudosos do para-arranca? E vou em silêncio, sem notas de trânsito, sem rúbricas de variedades ou música, tão pouco. Já tudo me cansa, mesmo o ruído que domino e escolho com a ponta dos dedos. Vou e quando paro no semáforo olho para o carro do lado. E ainda se sorri, afinal, e é de pôr na lista dos milagres. Não queremos por nada deste mundo que ela diminua.


janela #1

Os dias felizmente têm acordado com aquela luz de céu limpo, com sol e vento fresco. Da janela, nada aparenta o que se agiganta lá fora. Mas de imediato começam os pensamentos em cadeia que têm sido os maiores inimigos por estes dias. Começam com esse raciocínio de já não saber se o sol é bom porque é sinónimo de seca, passa para o momento em que lavo morangos e penso nas pessoas deslocadas que estão na zona do Sudoeste, dezenas ou centenas, do Bangladesh, do Nepal e de outros países, que colhem os frutos, embalam e depois penso em toda a cadeia até que eles chegam a mim e eu abro a torneira para lavar e  eu não posso gastar muita água e quanto mais tempo e quantos mais pensamentos destes eu vou ter num dia? Debruço-me na janela e a caixa da guitarra e do amplificador ainda estão na calçada. Já passaram quatro dias e ainda ninguém fez nada, inclusive eu.
Depois sento-me, começo a ler emails e parece até que há uma humanização nas palavras. "Desejamos que tudo esteja bem consigo …

A subida

Aqui há dias eu corria com a J. e íamos já em esforço, à espera dos derradeiros km finais.  Passámos o último abastecimento da prova, virámos à esquerda e ali estava ela: uma subida de matar os ânimos. Então eu contava à J. que nestas coisas da corrida para gente que não treina de verdade,  e não tem arcaboiço físico e mental como eu, dou comigo muitas vezes, durante as provas, a pensar nos homens ou soldados das guerras. Imagino-os sempre desnutridos, com fatos e mochidas pesadas, armas que não podem largar, botas pesadas que se enchem de lama e água e eles continuam a correr e a tentar sobreviver. Em que pensariam aqueles homens? Nos regressos às suas casas? Numa caneca de café numa manhã de orvalho? Numa música de que gostavam?  E contava à J. que penso nessas situações como motivo para eu não ter como não fazer as subidas e esforçar-me e deixar de ser coninhas. Por estes dias, tenho-me lembrado desses homens. Não tenho corrido, é certo, por razões óbvias. Mas lembro-me todos os d…

A praceta

A Dona Graciete tem 76 anos, vive sozinha e está na praceta Rainha Dona Filipa a apanhar alguns raios de sol. Ela pode. Porque não partilhou o hastag do não-sei-quê-fuck-home para depois ir fazer mais coisas do que a Time out (que agora é Time in) recomenda por estes dias.  A Dona Graciete acena-me ao longe e pede ajuda para ir até à entrada do prédio. Não tem medo do vírus e não tem medo de morrer porque a sua vida já a viveu, nas palavras dela.  Tem medo dos próximos dias em que não tem companhia porque o amigo do quinto esquerdo não pode sair que a filha não deixa. E as horas fazem-se maiores, o tempo ganha uma dimensão redobrada e a televisão enerva-a.  A Dona Graciete não sabe estar em casa como muitos de nós não sabemos e o vírus ainda não lhe roubou a saúde, mas já fez outros estragos.  A Dona Graciete tem problemas de mobilidade apenas, mas nas últimas palavras antes de voltar a casa diz que a praceta é a sua pontinha de esperança. 


A carta

O senhor do órgão elétrónico tinha iniciado Chopin, eu enxotava os pombos da minha mesa da esplanada da casa de chá, naquele largo do Funchal e no email aparecia "Lamento não poder estar contigo neste momento tão sentido. O viver nos Açores às vezes tem as suas coisas".
E eu percebi que aquela carta de adeus não era para mim.
De novo a esfera internauta intrometia-se e eu recebia as informações endereçadas ao jornalista de quem vou recebendo alguma correspondência por engano.
Mas entre resultados de eleições e outras notícias de menor valor que nunca leio até ao final, esta carta lia-a.
Que me perdoe a pessoa que a endereçou, a quem respondi a avisar do engano, mas seria pública horas depois, presumo.
Não é sobre a carta, sobre o passado e o presente. É sobre esse momento em que ele recebe a notícia de um adeus definitivo e não pode, simplesmente, fazer-se mais presente.