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A mostrar mensagens de Maio, 2020

Memórias do Sr. Joaquim

Passaram doze ou treze anos. Eu vivia numa casa húmida, não tinha vizinhos de prédio, com umas escadas que me faziam desistir de carregar qualquer coisa, onde nem o bonsai se habituara, acabando por despir todas as suas pequenas folhas, tendo sido já tarde demais para o salvar, quando dali decidi sair.
Em Maio, por altura das peregrinações a Fátima, o senhorio abria o espaço inferior do prédio, que nunca terá cumprido as suas funções de espaço comercial, e recebia peregrinos. Pela proximidade da N1, em várias semanas muitos eram os que se deitavam em sacos-cama ou colchões improvisados e descansavam, ligavam às famílias, curavam as feridas, embora muitas delas nunca tenham parado de sangrar. 
Por esses dias, e enquanto ajudava as pessoas a acomodarem-se, apareceu o Sr. Joaquim, mais de sessenta anos feitos, fanfarrão nas suas primeiras palavras, o corpo em mazelas visíveis e tudo o resto um misto de comédia e tragédia. Quando o ajudei a sentar-se e a tirar os ténis e ele fez-se em silên…

Mr. Miyagi

Tantos poemas esta semana e nenhum sobre os gatos que acordam às seis da manhã ou sobre os homens com motorroçadoras que abrem os sábados em zoadas vespertinas. Oito e vinte, os céus de negro, nessas manhãs em que queremos café e bolos e não perdemos essas ideias mesmo quando as calças apertam em tudo. Desci à minha rua direita com a foto da Isabel na minha cabeça (um beijinho a ela). Não pelo traçado de km que ela fez, porque está longe a minha actual audácia, mas por essa liberdade de sair em direcção à Carvalha, descer o rio, chegar à foz, seguir pelo caminho dos cactos para depois cortar pelas dunas e parar a meio, para ver esse mar que nos rouba fôlegos e metros de terra. Sigo para o parque, onde ainda não há hordas de romeiros. Vejo os patos sem água nos lagos, desorientados que estão, cruzo-me com os que correm suados dessa missão que já deve ter começado às sete. Aquele senhor de jornal numa mão, máscara na outra, só não trouxe guarda-chuva. Devolvo o sorriso ao polícia que me apa…