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A mostrar mensagens de junho, 2018

O Porto do S.João

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Na Rua das Flores a tarde escalda num vaivém de pessoas, todas diferentes e todas iguais. Todas desinteressadas pelo que a cidade nos grita, à margem de tudo o que é tão evidente e que se ouve nos martelos a zunir, vê-se nas esplanadas cheias, nos enfeites das ruas, nos excessos em cada artéria da cidade .  E sobe aquela massa de fumo, pairando o cheiro a sardinha e fazendo do Porto um enorme fogareiro. Mas devolvendo esse manto leve e fino, muito semelhante ao nevoeiro que faz do Porto o Porto. Um pouco triste, saudoso e sempre com aquela mística de nem tudo revelar. Na Ribeira estala o fogo, na noite em que não há horas para acabar o dia e vejo-me apertada  numa multidão, no Miradouro da Vitória, a seguir o rasto dos balões. Uma multidão e ao mesmo tempo todo aquele vazio a gritar. Pareceu-me mais triste ainda, o Porto. 

Drucker numa foto

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 Sem o saber ele fotografa uma frase de Peter Drucker. A D. Lídia (vou chamar-lhe assim) entra e sai da soleira, óculos escuros largos na cabeça e a fumar o seu cigarro. O seu marido, amigo ou amante cola o cartaz na parede, de onde o tirou no dia anterior, provavelmente. Breves instantes depois já a conversa rola, com fila à porta. Esta D. Lídia lembra-me a outra D. Lídia de Campanhã. O único sítio onde pago para ir à casa de banho porque cheira a lavado, tem uns antúrios vermelhos lindos e viçosos e quase sempre Camané a passar na rádio. As Donas Lídias são mulheres de feições determinadas e são quase tão explosivas quanto a mistura de lixívia e lavanda que evocam. Não têm papas na língua, não cedem a facilitismos (para os trocos) mas ainda vejo nelas muita ternura. E uma boa dose de coragem. WC Toilette 1€ ou "Onde quer que você veja um negócio de sucesso pode acreditar que ali houve um dia uma decisão corajosa".

Na Bica, um abraço

Ela estava na esquina da Rua de S. Paulo com a Calçada. Olhava em redor, algo inquieta e talvez mexesse em algum fio que tinha ao pescoço, na tentativa de encurtar os minutos. Ele veio, a descer a rua, sorriso largo e fechou o tempo naquele abraço prolongado escondendo-a no seu corpo maior, silenciando a música em batidas, a confusão, os encontrões, os copos a entornar a cerveja, a multidão. E olhou-a, disse-lhe algo ao ouvido e ficaram ali, num corpo só, breves instantes para o alvoroço ébrio e um pouco mais do que nada para eles. Tanto e tão pouco, naquele abraço.