Mensagens

#terminar

 Os telhados das casas que começaram a ser construídas na pandemia continuam ali, com ervas daninhas.  Não voltaram os homens a trabalhar debaixo do calor e do frio mas a obra parece não ter terminado. Uma obra milionário com chave na mão de gente pobre.  Lembrei hoje desses dias de azáfama. Talvez  mais para mim, na janela, do que para eles entre gruas, muros e argamassas. É capaz de ter terminado. A pandemia ou a obra?

#nãoesquecer

Esqueço a sopa do jantar no microondas e fica para o pequeno-almoço do dia seguinte. Combino coisas que estão semanas inteiras trocadas no calendário. Tento lembrar-me do nome das pessoas e não consigo e então vou à procura, anestesiando essa angústia que é não controlar esta amnésia crescente. Escrevo lembretes digitais, envio emails com "flag" de "follow up", espalho papelinhos pelo ecrã do computador,  pela porta do frigorífico, na janela da cozinha.  Sei que vou esquecer. Sei que vou falhar. Sei que vou ter aquele susto momentâneo.  E, no entanto,  o mundo continua a existir se eu me esquecer dele.

#síndromededomingo

  Às vezes sublinho frases ou parágrafos dos livros que leio, com essa esperança tonta de um dia voltar a eles para os reler. Ou para simplesmente os tentar memorizar, como se a minha memória não fosse ela tão trémula como o risco do lápis que faço. "Como falando a partir do vazio, do nada, Watts diz que quase todos os humanos chegam a velhos sem se terem apercebido de que " a vida é algo musical, algo para ser cantado ou dançado"". E no entanto, a vida são os dias com aquelas horas que registamos num software de afazeres, tantas vezes carregadinhos de incertezas, de medos e bloqueios que me consomem cada vez mais. E super diligentes lá prosseguimos imbuídos cada qual com a sua missão e se olharmos para o mundo à nossa volta percebemos que estamos todos a falhar redondamente. E danço. E canto. E chegarei a velha sabendo mais do vazio do que de outra coisa qualquer. 

#memorando

  “ -Afinal, talvez não seja assim tão mau. Há infâncias que se devem esquecer, infâncias das quais é preciso recuperar.” Há um par de citações que gostaria de me lembrar. No momento em que as oiço penso sempre que  depois me lembro mas nem passaram duas horas e já  não me recordo o que foi dito ali, à média luz, com o som do piano e da guitarra a embalar aquela história de Momom. Há um certo descontrolo nisto, eu diria. Esta semana fui ao cinema ao ar livre porque tinha visto na semana anterior o trailer do filme seguinte e pareceu-me interessante. Passaram dez minutos do filme e finalmente tive certezas que já o tinha visto. Mas não tive coragem de me levantar porque,  na verdade,  cada cena era uma espécie de puzzle incompleto. 

[ #wordlog #sonhos ]

  O meu pai falava muito em estricnina. Para qualquer coisa que visse na TV que lhe fosse absurda, provocada por alguém de muita má rés.  Cheguei a temer pelos gatos que às vezes subiam à mesa. Eles não eram maus mas a verdade é que eu não sabia qual a medida de maldade exigida para que o castigo fosse em veneno. Por estes dias sonhei que o homem que tem o ódio nos olhos comia uma sopa vermelha, espessa a saber a terra como a sopa de  beterraba e depois ficava muito hirto e branco. 

[#wordlog #esplanada ]

  os pássaros saltitam entre o reboliço e  procuram as migalhas que caem, como pequenos tesouros. vê-los é a única ordem na desordem urbana. está sol, a esplanada está cheia de conversas, de olhares que não se cruzam, de ecrãs tácteis, de desconhecidos que não vão chegar a falar-se. eu vejo os pássaros e penso que é por eles que se põe samba em volume de chegar ao outro lado do Atlântico. Só pode ser por eles. São os únicos que dançam. 

[ recobro 3.0 ]

 Aqui estou eu, de novo, à espera que a  orquestra comece a tocar. Desta vez, sem deuses ganaxis e um pouco mais a Norte.  Passou aquele verão, onde todos nos abrimos de esperança e daquela doce ilusão de que havia um caminhar para o antes, mesmo que isso não seja mais possível em quase todas as vertentes. Já todos sabemos que o melhor será não ter o mês de Dezembro. E Janeiro também não. O Carlos Drummond de Andrade que me perdoe mas o ano compõe-se de dez meses e não quero o natal e pós-natal para nada. E o calendário avança e as diferentes classes da saúde continuam com dias negros, a educação dos miúdos continua num pára-arranca, a cultura ora fecha ora abre, medidas estruturais para lidar com o acesso massivo ao sistema de saúde não sei se foram tomadas e os nossos governantes brincam aos orçamentos por validar e a ver quem tem mais "pets" para cuidar.  Continuo a acreditar na ciência até porque os banhos de luar nunca me deram muitos resultados. Além do mais, p...