Com o devido delay

Há uns tempos a propósito da polémica da partida do Fernando Tordo escrevi o seguinte:

Eu não me preocupo com os que vão (e entendam a minha frieza), preocupam-me os que ficam cá e todos nós que pagamos esta fatura demasiado pesada todos os dias. E mais ainda. Se me surgir a oportunidade vou também. Mas vou sem mágoas. Sabem porquê? Porque ninguém sai obrigado, ninguém vai com estatuto de refugiado ou embarcado clandestinamente. Saímos porque somos livres e isso é das melhores coisas do mundo. O Fernando Tordo é de uma geração que tão bem sabe dar valor à liberdade. E eu iria sem precisar que as luzes das câmaras de televisão e as peças jornalísticas dramáticas que fazem nos aeroportos contassem a minha história. Porque a história do Fernando Tordo assim como tantos outros Fernandos é tão idêntica àquela que o nosso país assistiu década após década. Porque fomos sempre um povo de sair, de ir além fronteiras, de ir esburacar oportunidades aqui e acolá. Quem quer ficar fica, com ou sem os duzentos euros de reforma ou de rendimentos. E quem quer vai e procura outras oportunidades. E é esta liberdade de escolha que eu dou graças por ainda existir. O resto, são crónicas em tempos difíceis (económicos e sociais). Mas volto a dizer que iria também mas sabendo que temos o melhor clima do mundo, a melhor comida do mundo, tenho os melhores amigos do mundo e a minha família iria entender que em mim cabe o mundo inteiro para viver ou trabalhar. Não temos os melhores políticos e gestores do mundo mas temos muitos "Fernandos" de coragem, que encaram a mudança e, acima de tudo, fazem-no porque são livres. E a liberdade é um valor precioso. Podem dizer-me que é por necessidade e eu reconheço que sim mas quando procuramos melhor não há tristeza que nos puxe para trás.

E agora surgiu a oportunidade de ir. Não para fugir ao machado pesado do nosso estado, da nossa política de interesses, das fraudes, dos milhões que se falam e do contribuinte que paga sempre todos os erros. Vou porque há em mim este desassossego de saber o que é trabalhar num país diferente, num contexto absolutamente diverso. E mesmo sabendo que é o passo mais arriscado de sempre, trocando o certo pelo incerto, quero enfrentar todos os medos e receios que esta mudança implica. E daqui a uns meses se tudo correr mal terei as mesmas convicções, assumirei os erros e atalharei novo caminho. Porque em tudo há um (re)começar. Um caminho.


Caminho de Santiago - Moledo (2012)



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