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O mar

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Não está aqui. Mas consigo ver para além daqueles edifícios e daquele rosa alaranjado no horizonte um sol que beija o horizonte enquanto sacudo a areia dos pés. Mesmo em frente ao mar. Numa praia. Em Esposende, em Sintra, Cascais, no Alentejo ou no Algarve. Em todas as minhas praias. Os domingos nunca foram fáceis, ou porque sempre me impuseram distâncias, fazer km´s até outro lugar, ou porque o stress do trabalho começa a corroer. Hoje não foi fácil não ter o mar por perto, essa imensidão de água que, mesmo sem me dar respostas é dos melhores ouvintes do mundo.

Aos 33

Sonho com uma casa com jardim e um pinheiro manso. Não é uma piscina. É um pinheiro manso como existe em todas aquelas casas que conheço e que sempre me suscitaram mistério, curiosidade e uma sensação de que escondem interiores de conforto. As casas dos pinhais, casas de praia, à beira mar ou à beira rio. Vejo-as na foz do Rio Neiva, no pinhal de Ofir ou na marginal de Esposende, no caminho para a praia das maçãs em Sintra e em tantos outros sítios que já visitei. Não é pelas casas, é pelo pinheiro manso que me transmite longevidade, serenidade e robustez.  E é isso que quero para os meus 33 e para a minha vida também.

Voglio dirti

Chovia e estava muito nevoeiro e por isso não consegui ver todo o percurso que tantas vezes fazíamos junto ao Rio Douro. E de sobressalto as memórias, as perguntas, a inquietude...num braço de ferro que se perpetua.

O carteiro

E o rasgo na memória. Foi ali no meio daquele silêncio que incomoda, que mói, no silêncio do velório que faz da nossa memória uma cassete que puxa à frente e atrás tudo o que conseguimos resgatar dos que morrem e dos que ficam. Aquele homem alto, de olhos verdes e cabelos grisalhos, trouxe toda uma infância em que sempre que ouvia a motorizada pelo caminho fora e o alarido dos cães, eu gritava: " É o carteiro!". E ele sempre com ar muito paciente falava com o meu avô e este colocava o dedo no pequeno estojo de tinta e esborrachava-o no pequeno círculo desenhado no papel. E a sua chegada representava sempre, acima de tudo, surpresa. Porque nunca sabíamos o que trazia, ou, de certo modo, sabíamos sempre. E depois de todos estes anos, em que já não entrega cartas, nem percorre os caminhos com a sua motorizada eu descubro que esta não era a sua terra e aqui viveu toda uma vida, por dedicação a uma profissão. Ou melhor, esta é a sua terra porque quem vela pelos mortos e pelos ...

Hoje

Faltava apenas uma semana. Até que noutro adeus não tivesses mais vergonha de esconder as lágrimas, o lamento em fôlegos. Nunca o demonstraste antes, e não o tivesse eu visto porque seria sinónimo de que, da tua distância, não haveria nem sequer sinais da doença. Não te vergaste a ela e só por isso resististe mais de quatro anos numa moinha que teria sido fatal para tantos outros. Não me importam as ciências, os avanços se depois num simples diagnóstico se ditem sentenças. E se para uns valem as auras positivas, a alegria de viver, para outros mais do que isso não basta porque não há máteria que resista. Fomos erros, discussões, palavras ditas e omissas, mas também revelação. Mas soubeste, de forma serena, valorizar o sorriso dos netos e de quem nunca te largou da mão. E sim, tinhas um humor fantástico e acho que isso herdamos de ti, pai!

O dia a seguir

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Ainda assim as coisas perfeitas aborrecem-me.

Neve

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Aquele "restolhar" das botas na neve que me causa arrepios. Mais do que os do frio. Engolir flocos de neve só porque sim. Seguir pegadas como se estivesse a fazê-lo na areia quente da praia de verão. É voar até aos seis anos quando vi neve (real)pela primeira vez.