O carteiro

E o rasgo na memória.
Foi ali no meio daquele silêncio que incomoda, que mói, no silêncio do velório que faz da nossa memória uma cassete que puxa à frente e atrás tudo o que conseguimos resgatar dos que morrem e dos que ficam.
Aquele homem alto, de olhos verdes e cabelos grisalhos, trouxe toda uma infância em que sempre que ouvia a motorizada pelo caminho fora e o alarido dos cães, eu gritava: " É o carteiro!". E ele sempre com ar muito paciente falava com o meu avô e este colocava o dedo no pequeno estojo de tinta e esborrachava-o no pequeno círculo desenhado no papel. E a sua chegada representava sempre, acima de tudo, surpresa. Porque nunca sabíamos o que trazia, ou, de certo modo, sabíamos sempre.
E depois de todos estes anos, em que já não entrega cartas, nem percorre os caminhos com a sua motorizada eu descubro que esta não era a sua terra e aqui viveu toda uma vida, por dedicação a uma profissão.
Ou melhor, esta é a sua terra porque quem vela pelos mortos e pelos vivos dá mais de si aos lugares do que aqueles que nela vivem e nada compartilham.

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