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Uma casa, uma história

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Quase sempre escrevi dali. Ora sentada no paredão do miradouro, ora na esplanada, quase sempre sozinha, a não ser que alguém pedisse para partilhar a mesa. Traziam-me tremoços com azeitonas e durante sete dias o fígado gritou. Às vezes lia, mesmo quando havia música ao vivo e era pouca a luz do candeeiro da rua. Terminei o livro da torre do Xavier ali. Com um nó profundo na garganta. Duas histórias de solidão. As casas do largo têm terraços, portadas amplas mas há uma que está fechada. Outra, mais acima, é uma varanda para o céu. Clarisse tem a casa fechada. Como o seu coração.  O verde profundo dos seus olhos e a franja desajeitada dão-lhe um ar de menina, embora as suas mãos revelem mais estações. A casa tem o seu nome. Imagino a sala ampla, tapete largo, almofadas de cores fortes espalhadas pelo chão. Aquele conforto de paredes brancas e soalho de madeira e uma enorme estante de livros virada a poente.  As viagens prolongadas não permitem que fique ali, a con...

A cigarra e a árvore

O fim-de-semana inteiro e a cigarra trouxe-me o Algarve à janela, despertando o interesse e um certo aborrecimento, pelas longas horas de vazio, calor e obrigações sem fim. Da janela, vejo a árvore grande, onde a cigarra se esconde e continuo sem perceber se é uma mimosa. Penso para mim como está crescida e como são grandes as vagens que pendem junto às folhas. E como contrasta, juntamente com as palmeiras e oliveiras da quinta do Lumiar, com a colina de casas aglomeradas ao fundo, que mais parece a Rocinha. Começou a semana e esta mesma árvore soltou um enorme galho que caiu sobre os carros estacionados, numa aparente fadiga de si mesma. Jurei que nunca mais me queixaria da cigarra! Um dia depois noticiava-se uma tragédia com uma árvore e ao terceiro dia em que removem os restos da minha árvore a terra treme, ajustando contas consigo mesma. Pelo meio, passaram os dias, avessos às cigarras, às árvores e aos tremores da vida.

Aveiro

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Aveiro não é a Veneza portuguesa. É Aveiro. Senão, atente-se às ilustrações nas proas e nas rés dos barcos representativos da arte Xávega, e percebe-se que, por cá, o carnaval é bem maior. Treze anos depois, Aveiro está diferente. Praças com nova vida, turistas por toda a parte e as águas da ria não param. S. Gonçalinho nos guarde de mais tuk tuks que contei pelo menos três, dos mais barulhentos, o suficiente para tirar protagonismo às Bugas que não sei onde param. Mas comecemos pelo fim que, afinal de contas, foi o princípio de tudo. As empalhadas e os pregos no pão do Augusto, ali para os lados do Rossio, na companhia da amizade que ali nos levou, tempos idos em que nas empresas não havia os “sun sets”, “after work” ou os falsos “team buildings” carregadinhos de pomba e sem circunstância nenhuma. Uma vénia ao Sr. João, que ele próprio é Aveiro, de gabão vestido e a lançar cavacas e boa disposição. Aveiro das raivas, dos ovos moles, das pevides compradas no mercado da C...

Tutti e nada

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O vento frio faz esvoaçar as capas de plástico dos turistas arrepiados. E leva as palavras de entusiasmo e os gritinhos das crianças tão longe quanto está o nevoeiro que não deixa ver o resto da paisagem. O resto é tudo! Tutti! Porque oiço a doçura do italiano. E estes que partem daqui, vão sem uma grande parte. Aquela que eu já vi. O verde de sol. Que é mais pujante e mais desafiador ao azul do mar.  Nos locais que visitamos e que nos assombram de beleza deveríamos ter a oportunidade de os ver com sol e com chuva. Em tudo que é belo e profundo nada nos deveria escapar. Cabo da Roca - 08.07.2017

A torre da universidade

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Lá estava ela, no postal que resiste ao tempo. Entre rosários, cromos de ídolos do futebol, chaves, pedras escritas, papéis que perderam as suas mensagens com o sol e a chuva. Assim é este marco de passagem. De vidas, de histórias, de pessoas. Quem terá deixado o postal? Quem deixou as chaves? Que portas terão batido nas suas vidas, que desejo terão formulado? Quem são estas pessoas que sorriem à passagem, dizem "bom dia" com sotaque, levam pouco mais do que uma mochila e têm a pele queimada do sol? Talvez não sigam pela fé, mas por esse caminho de silêncio, de reclusão. A torre da Universidade de Coimbra está ali, no estreito de Antas com Castelo do Neiva.

Do mar de Santa Cruz, com Berlim no pensamento

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O fim de um dia. O silêncio da praia vazia. O surfista solitário ao fundo e aquela luz, de rendição, a rematar os reencontros, as brincadeiras, as conversas com os amigos que prezamos em intervalos de tempo. Tão espaçados quanto as histórias que nos falham, sem nunca as passar a relatos. Como a do pequeno papel, encontrado na bolsa que não usava há meses. Berlin Charlottenburg 17h30 11/09/2015 Por esta ordem. Terá sido um lembrete para escrever algo, um horário de metro ou de comboio. Quase de certeza uma memória boa, um detalhe. É para isso que levo papel e caneta em viagens. Não escrevi, não me lembro do que gostaria de ter escrito. Perdeu-se um instante e um simples pedaço de papel reavivou essa distância de tempo e lugares, vertidos numa incógnita.

Uma semana depois, muito mais aliás (na escrita por aqui)

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Passou uma semana sobre o 13 de Maio. Esse dia que se esgotou na tinta dos jornais, nos media e em todos os meios digitais. Nas suas três forças: música, religião e futebol. Para mim, por esta ordem,se não se importarem Porque desde a infância que vi o festival da canção e juro que Malta e Montenegro não saírão da minha lista de destinos. Ou não tivesse começado aí o fervor de conhecer sítios diferentes. A música. O amor. Essa inesgotável fórmula de essência, de sentido. De existir. Tão verdadeira como o sorriso do Papa. Sem ele saber o desgosto que sofri quando descobri que a sua morada não era Fátima mas o Vaticano. As histórias em volta desta figura.As aparições. A crença nessas crianças. A minha mãe que se chama Gracinda porque nesse ano todas as meninas se chamaram assim porque uma se salvou, depois de orações rogadas ao trio de Ourém. A visita do Paulo VI nas palavras dela. A minha tia que não foi porque uma vaca pariria nesses dias. A pobreza, ela mesmo. Lado a lado com a fé. ...