O medo não existe

A manhã de domingo acordou solarenga e a convidar para uma saída. O domingo é, habitualmente, o dia da ansiedade, das cócegas na barriga quando se pensa no regresso, na 2ª feira e na semana de trabalho. Não conseguiria descrever essas sensações, mas acredito que posso saber viver com elas e é isso mesmo que faço, muito embora saiba que o domingo para mim é um dia atípico e, diria mesmo, triste.
Hoje já não preciso de apanhar a estrada e fazer mais hora e meia de viagem a pensar na vida, nos sacrifícios, no que gostamaos de fazer, em tudo o que nos faz mover de um lado para o outro...estou por aqui e deste modo a "ansiedade dominical" será gerida de uma outra forma e diluir-se-á nas pequenas coisas que tento fazer.
A primeira é tomar o pequeno almoço e tentar consumir o bolo de iogurte (mais parece de pedra), feito para testar o forno da cozinha mas que não está muito sugestivo nem de sabor, nem de gosto.
Depois, importa descobrir neste nada, onde é possível comprar o jornal. Essa é uma rotina que não dispenso, esteja eu em qualquer parte. Desde os tempos do liceu, quando o prof. de economia nos sugeriu comprar o jornal de forma a percebermos as movimentações da bolsa de valores, que todos os domingos compro o jornal. Aliás, este foi, de resto, um bom hábito que consegui que permanecesse em casa, e ao qual os meus pais aderiram. Ainda hoje, compram o jornal ao domingo, ocupam a tarde na sua leitura (mais a minha mãe) e durante a semana continuam a ler os pequenos excertos das notícias, mesmo sabendo que já não são actuais.
E hoje mesmo quero comprar o jornal e vejo-me obrigada a sair de carro para o fazer, procurando na bomba de gasolina mais próxima e percebendo que deve ser o único sítio por perto onde o posso adquirir.
Decido depois, dar um passeio a pé, muito embora não conheça nada destes arredores,parece-me que há muito espaço verde à volta, muitos campos, o rio, a natureza a convidar o exercício às pernas. E lá fui, por uma descida íngreme, logo depois de atravessar a perigosa estrada nacional e descubro de imediato, umas pequenas instalações, de alguma associação que serve de creche ou infantário. Ao fundo, num imenso largo, há o que resta de uma antiga casa senhorial e uma capela anexa, que não vislumbram movimento, apenas a sombra fresca da manhã, o som dos pássaros nas árvores e o corrrer da água que segue caminho para baixo, até ao fundo dessa estrada. Junto à capela, no largo há um imenso eucalipto falsamente plantado no chão, visivelmente seco que terá servido, julgo eu, para o tradicional jogo do pau ensebado. Digo isto, porque no cimo da árvore resta um pequeno cordão onde terá estado preso o troféu da brincadeira, algum cabaz de compras, ou algum presunto curado.
Sigo por uns degraus bastante gastos pelo tempo e retomo o caminho que me leva à estrada por onde irei à procura da aldeia, de alguma coisa, não sei.
Ao longe vejo uma ponte e por isso apercebo-me que o rio Vouga estará por perto,e quando me aproximo verifico que apesar do leito do rio ser considerável, a água é escassa mas suficiente para pequenos cardumes de peixes minúsculos flutuarem abeirando-se das ervas que por ali abundam. Há uma agitação na zona inferior do tabuleiro da ponte, num abrigo improvisado para uma almoçarada em família e amigos. O cheiro a carne grelhada e o fumo da churrascada já paira no ar, e depois de atravessar a ponte, verifico que uma enorme mesa improvisada com tábuas, substitui aquela que seria uma toalha estendida, num pic nic habitual. Pela quantidade de carros e motos e pessoas que por ali circundam, o pic nic deve ser para a aldeia toda. Prosigo a marcha e viro à esquerda numa estrada ladeada por pinheiros e eucaliptos e pela linha de comboio, que so descobri mais tarde, depois de ver um sinal colocado logo acima junto a umas ervas de urze que me preparava para arrancar. Aí percebei que do lado superior existia a linha de comboio que mais à frente cruzaria a estrada por onde caminhava. Não consegui precisar se a linha ainda se manterá activa com a passagem de alguma automotora, mas não percebi, muito embora me os carris me pareciam gastos e as pedrinhas sombreadas com o óleo das sucessivas passagens. Mesmo que inactiva, percebo que seria um precioso meio de transporte para estas gentes, além do mais ali perto existe, ao que parece um museu ferroviário.
E continuo, não muito satisteifa porque gostaria de ir antes por um caminho de terra, mais junto ao rio e não pela estrada, porque ainda vão passando alguns carros.
Mais à frente, as primeiras casas do lugar de Jafafe avistam-se e dou por mim a pensar que o melhor será voltar para trás e procurar o caminho que vira atrás e por onde teriam seguido um grupo de ciclistas que se cruzaram comigo.
Volto à ponte, à azafama do convívio, e dali a vista é bastante agradável para os eucaliptos envolventes e para a fachada de uma quinta em ruínas emergida no meio daquele verde todo. Como se irá para acolá? É a primeira pergunta que faço, mas decido voltar ao tal caminho de terra, por onde me cruzo com uma família num pequeno tractor vindos do terreno onde estiveram a cortar as palhas secas do milho, já sem as espigas. E penso que afinal é domingo e que mesmo assim o trabalho no campo não merece pausas nem descansos mais refinados.
Continuo e as marcas das bicicletas na terra são mais que muitas, as minhas calças arrastam-se na poeira, o que me irrita porque não são para o meu tamanho como seria de esperar. Ao fundo algumas casas, uma delas bem pitoresca num amarelo caiado, com uma longa marquise de janelas grandes pintadas em branco. Imensos vasos, tralhas, cordas a servir de estendal, um pequeno anexo mas não vejo ninguém. Parece que a casa foi em tempos bonita e bem agradável, mas terá sido demasiado abandonada. Não vejo por ali ninguém e já não consigo precisar que caminho terá tomado o pequeno tractor. Sigo o trilho e há pequenas indicações nas pedras junto às vinhas que acompanham o caminho. Ora setas pintadas em verde, ora uns plásticos pendurados na vegetação, todos idênticos, como que a marcar o caminho de alguma prova de BTT realizada em tempos. Mais abaixo, oiço vozes mas não consigo precisar de onde vêm, ha um enorme círculo de arvóres magestosas e que, terão sido cuidadosamente plantadas daquela forma, assim todas alinhadas e muito certinhas, as quais foram depois rodeadas por uma cerca. Corto caminho por uma carreira mais estreita mas que me faz desistir da ideia de continuar porque tem demasiadas silvas para ultrapassar. Volto então ao caminho inicial e assim continuo por quase uma hora. Não se ouve nada, nem ninguém, apenas pássaros, barulhos vindos das árvores, madeira seca a estalar com o calor, e ao fundo, muito ao longe os carros que passam na estrada, que, não estando errada é a A25 que vai para Viseu. A continuar a andar assim chego a Albergaria pelo meio dos campos. Mas continuo, porque afinal de contas ainda não andei quase nada, segundo a minha teimosia pegada. Já passa do meio dia e é então que olho para trás. É então que penso que pode ser perigoso andar sozinha por caminhos assim, ermos e desconhecidos para mim. É então que acelero um pouco o passo, aperto o telemóvel que levo na mão direita. Não tenho mais nada comigo, apenas o telemóvel e as chaves de casa, enfiadas no pequeno pato branco, de bico e patas amarelas, que serve de porta chaves. Ando mais rápido e agora sei que estou com medo.
O medo não existe, até que pensamos nele.
Agora consigo ouvir o tilintar do fecho da minha camisola atada à cinta, consigo olhar vezes sem conta para trás, sentir o coração a bater mais rápido e começo a pensar em coisas, as quais não teriam sentido nenhum, se não tivesse pensado no medo. E mesmo assim continuo pelo caminho, na esperança de encontar algum corte ou outro acesso para um caminho diferente que possa ter alguma indicação que me leva para a aldeia ou para junto de casas. Mas nada, há sítios por onde passo, que pela sombra são mais escuros, têm mais vegetação e já não consigo ver beleza nisso, só o medo de estar ali. Depois assusto-me com um melro que deveria andar entretido no meio dos fetos e que à minha passagem fugiu de repente. Aí percebo que precisava de voltar para trás ou sair dali rapidamente. Ando cerca de 2m mais à frente e o que vejo faz-me parar e suster a respiração. Não consigo pensar,sequer, numa alternativa caso a tenha que utilizar. Dois enormes cães estavam no caminho de terra, entretidos a olhar na direcção oposta e farejando não sei bem o quê. Não vejo ninguém que os acompanhe, parecem-me cães rafeiros, e não sei se pertencem a algum caçador. Não estão mal tratados e com fome o que, no momento, até pode ser a meu favor. Mas isso não impediria que agissem em própria defesa, não está ninguém à volta deles, no caminho ou no trilho. Não passou um minuto e a única coisa que penso quando um dos cães repara em mim é que não posso correr, ou fico imóvel ou a fugir só para cima de uma árvore. O cão dá uns pequenos passos na minha direcção e então decido dar meia volta e caminhar normalmente, se bem que já sinto as pernas a fraquejar, e o medo já me tomou por completo. Três passadas volvidas e acelero e olho para trás e vendo que os cães não me acompanham é aí que corro, corro até não conseguir mais e até chegar junto à estrada, e junto às vinhas onde iniciei aquele percurso. Duas motas de motocross rasgam o silêncio e tomam a direcção que eu acabara de percorrer, com a respiração descontrolada e completamente exausta. Uma sede terrível e subo a ladeira paralela à capelinha e à casa abandonada. Chego à estrada e a casa.
Bebo um copo de água fria e penso que sou uma tonta. Seguiria em frente, faria uma "festinha" aos caes estes acompanhavam-me caminho fora e eu saberia onde o caminho iria dar. Agora assim não, voltei para trás, corri, temi o pior e vou escrever que o medo não existe, mas a verdade é que hoje,já tive a minha pequena dose.

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