Histórias do Pai Natal...

Por esta altura somos invadidos pelas luzinhas pisca-pisca,pela neve artificial, pelas cores do Natal, pelas campanhas de solidariedade, pelos shoppings a abarrotar pelas costuras, onde o fantasma da crise não tem licença para entrar.
Não posso criticar porque também lá vou, se bem que eu gosto é de ficar sentada naqueles bancos a enfardar gelados da Olá, gomas e chocolates Cadbury e a ver esse fenómeno social que junta gentes da Foz com famílias inteiras da Senhora da Hora.
Infelizmente nesta altura é quase impossível entrar nestes centros de consumo, assim como é impossível confiar na informação dos painéis electrónicos dos parques de estacionamento desses mesmos centros.
E há sempre a romaria para o Pai Natal que posa com as criancinhas para a fotografia paga a peso de ouro, que os papás fazem questão de pagar, para que os filhos fiquem com a recordação do velhinho das barbas brancas.
Que a figura seja simpática e ternurenta, ninguém tem dúvida. Quando vejo os Pais Natal dos centros comerciais lembro-me quem serão os felizardos que estarão por baixo das vestes vermelhas. A profissão de Pai Natal é a mais sazonal de todas, não há contratos que sejam questionados, não há inspecção do Trabalho que implique com os contratos destes senhores. Um mês antes do Natal, os classificados anunciam as vagas de Pai Natal, que não veêm da Polónia, desiludam-se as criancinhas, mas do centro de emprego mais próximo.
E porque insistem as mãmas em colocar as crianças junto ao Pai Natal quando os pequenitos choram desalmadamente com medo dele?
"Oh querida vai lá que é o Pai Natal!" E a criança está lá preocupada com isso e quer apenas ver-se livre daquele monstro que tem barbas falsas detectadas a Km de distância e fala com uma voz estranha.
É tenebroso...e há crinaças que sofrem. Eu junto-me a esta causa...à das criancinhas que têm medo do Pai Natal. Porque eu também choraria se me colocassem no colo de um estranho que têm um fato que cheira a bolas de naftalina.
Aliás, no meu imaginário de criança, o Pai Natal nunca existiu...a linha imaginária era bem mais dramática, imaginando o pobre do menino jesus em tanguinha a descer a chaminé. Depois outra coisa que eu pensava era como estando ele sempre com os bracitos abertos descia pelo escuro da chaminé, caindo no "sarranho" da lareira...até aos meus 8 anos sempre tive muita pena do Menino Jesus nesta altura do Natal. Primeiro porque tinha que andar de casa em casa cheio de frio e sem roupa e depois porque tinha que descer à minha cozinha,por uma chaminé podre de suja. Como sempre vivi numa casa humilde, para não dizer pobre, sempre pensei que o Menino Jesus reparasse nessas coisas e nos desse condições no ano seguinte...sempre pensei que ele fosse reparar que não havia água canalizada, que os bancos eram de pau, mas a avaliar pelos anos que demoraram a haver melhorias, o menino Jesus era, de facto, um despreocupado com essas coisas...Entrava mas não fazia sala! Eu muitas vezes me perguntei como é que o menino jesus ia à feira comprar aquilo que depois eu desembrulhava,sem grandes excitações, porque as expectativas eram diminutas. De qualquer modo, o Pai Natal era mais uma figura da televisão e o Menino Jesus ganhava pontos.
Gostava, pois, que os pais não obrigassem as crianças a aproximarem-se do Pai Natal quando as mesmas não querem e passam um horror e fartam-se de chorar...mais quando existem por perto renas falantes!

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