Levanto-me da cama porque o vento tem sido por demais e bate nas tampas das caixas do correio. A par disso oiço os vizinhos no banho, a máquina de lavar a funcionar e com sorte serei prendada com o autoclismo. Ainda assim o sosssego desta casa é ímpar comparado com as outras (mil) por onde já passei.
Fiz chá na esperança que o quentinho na barriga me embale para além do zumbir do vento.
Tenho a sensação de que o dia foi a dobrar no tempo. Tenho feito um esforço, não sei se de concentração ou desconcentração. Umas vezes pergunto-me "Porquê"? outras "Porque não"?. São coisas distintas, não é? Da realidade e do que ainda não foi ou o é apenas imaginado, colorido de sonho.
Tenho sentido que mudei em muitas coisas. E numa delas é o não gostar de passar um dia inteiro sem falar. Antes não me importava e vivia num mundo meio estranho ou estranho de todo. Voltado para dentro. Hoje encontro pouco cá dentro.
O dia não começou bem. Há intentos que fazem de nós problemas brutais. E não gosto de sentir isso.
Conheci uma praia linda - Praia da Adraga. Tem uma falésia muito bonita. Estava vento e muitas nuvens mas havia muitas pessoas na esplanada e junto à areia. Existem lugares lindos por aqui mas sempre com muita gente. Fiquei no carro a ler e a observar o pai que levou o míúdo e o cão a brincar. Estiveram horas na areia onde o pequenote, o cão e um pequeno crocodilo de brincar foram reis e senhores. E eu fiquei talvez uma hora a vê-los brincar. Acabei por picnicar e voltar horas depois.
Sinto que procuro coisas para me ocupar. Vi no jornal onde estava o filme Italiano "Io sono l'amore" e sendo no shopping do centro de Cascais dou por mim a aceitar que será razoável ir até lá. Era para chorar de certeza mas fui.
Agradável surpresa saber que há salas de cinema do tamanho aqui do apartamento de Albarraque. Nunca pior e esperar que não se oiça o filme da sala vizinha.
Na sala meia dúzia de tias, sem contar comigo que, a sê-lo, espero não ser do calibre das que se sentaram ao pé de mim. De um lado, a decadência de uma mulher da idade da minha mãe, muito bem vestida, com "banho de loja" mas um hálito inconfundível a conhaque ou algo alcoólico que, em mistura com o perfume francês de toque acentuado da outra vizinha provocaram em mim um mal estar que ponderei sair no intervalo.
Tirando a companhia, o filme é realmente lindo, pela história, pelo papel da inglesa escanzelada, pela língua Italiana e pela perspectiva de estarmos a ver um filme com imagens reais, sem efeitos especiais, que não é nada Holywodesco, que tem o olhar do realizador e pormenores fantásticos. E depois ser em Italiano soou bem no ouvido e as imagens de Milão relembraram a velha Itália, vestida de edifícios castanhos, austeros e imponentes.
Tem um final triste, é certo. Ou meio triste porque no meio da morte há vida, paixão e amor.
Regressei a casa, acabando por dormitar no sofá.

Dimmi, parlare con me, a tutte le ore ...lo sono qui.

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