Poesia...é o que vos digo!

Por estes dias, de muito sol e calor, quem atravessa Sintra pode muito bem descobrir uma arte, uma nova forma de expressão, mas com poucos fins estéticos, é uma verdade.
Poesia, é o que vos digo!!
Sem carácter fingidor é muito fácil ser-se poeta numa passadeira onde duas centenas de velhos sul americanos decidem parar, contemplar o Palácio da Vila em frente, apontar para as lojinhas onde vão comprar as queijadas de Sintra e para rematar dar dois dedos de conversa sobre a loiça da montra em frente, que isto de ser turista dá direito a meias horas no meio da via, sem que haja um único polícia que modere isto!
Buzinar não é poesia, não vá dar algum enfarte aos velhos e não tem graça porque fica tudo a olhar para nós como se tivessemos saído do planeta daqueles que trabalham no mês de Agosto e fazem um esforço por cumprir horários.
Poesia é rosnar baixinho "cabrones" para os espanhóis que decidem andar em sentido proibido, passar-nos à frente no trânsito quando estamos a ser simpáticos e a tentar deixar passar os coches dos cavalos com uma família empoleirada a saborear os ares da serra. Mas quem se lembra de fazer negócio com coches e cavalos numa terra que não tem estradas em condições para automóveis e peões? Devem pensar que estamos em Viena d'Áustria...Bem sei que Sintra é a capital do romantismo mas os cavalos até cheiram mal!!!
Poesia é contar até 20 e respirar fundo 5 vezes quando ficamos presos numa fila de jipes todo terreno com uma excursão de bimbos que decide mandar beijinhos e fazer caretas aos carros que estão atrás...muitos simpáticos, não demorassem 20minutos a arrancar com a caravana!
Mas mais poetas somos quando vemos pessoas que não são capazes de tolerar nada disto e demonstram ser autênticas aberrações humanas que nem deveriam ter saído de casa...


"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
"
(...)
" À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim..."


(Álvaro de Campos)

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