Ver e mudar de ideias

 
Começa assim a Alemanha. Vista de uma janela do comboio que liga o aeroporto à cidade de Munique. A dúvida na paisagem é entre flores de tremoços ou dos "grelos". Mas, pensando bem, nunca vi um alemão a apreciar tremoços. Até à chegada, levava a ideia de que a Alemanha era cinzenta, as pessoas não eram muito simpáticas, as cidades eram frias, austeras e Munique não passava por aqueles lugares que gostaria de visitar e, tão pouco, Berlim.
Como é bom poder ver para mudar de ideias! E decobrir uma cidade moderna, jovem, limpa, organizada, calma, plana e perfeita para andar de bicicleta, com imensos espaços verdes. E depois as pessoas foram o melhor! Claro que termos portugueses pelo mundo ajuda, mas os Bávaros mostraram-se atenciosos quando nem sempre sabíamos pronunciar os nomes em alemão, esforçavam-se por falar inglês, as pessoas não precisavam de ser interpeladas para pedir uma informação acerca de horários de bus porque elas mesmas tentaram ajudar. Aquela gente bebe cerveja como se não houvesse amanhã, come muito mal porque nunca vi tanto culto às "pommes frites", têm aqueles "Brezels" maravilhosos mas com sal que arrebenta com o colesterol de qualquer pessoa. Mas também fazem desporto e correm nos espaços verdes, adoram caminhadas e idas para a montanha e para a neve, não têm problemas em andar nus nos espaços próprios e não têm vergonha de vestir trajes típicos sem ser em dias de festa. Saem cedo do trabalho e não deixam de ser produtivos, saem à rua, vivem os espaços ao ar livre, os mercados, as praças, os "beer gardens". Convivem, riem alto e cantam odes que, inercalam entre os brindes das canecas gigantescas e as garfadas no pernil assado ou nas salsichas. E mais do que isto, as paisagens à volta de Munique foram absolutamente deslumbrantes. Salzburg, já na vizinha Áustria, Neuwachstein e um lugar que dificilmente vou esquecer: Königssee. Um lago recortado entre montanhas de verde, serpenteado de névoa a teimar não deixar a paisagem sobressair e as montanhas revelarem os picos ainda repletos de neve. Já quase no final uma igreja (St. Bartholomä), o cais onde os barcos elétricos atracam vezes sem conta depois de cruzarem o silêncio daquela paisagem que nos deixa rendidos. A dada altura o barco pára e faz-se ecoar uma trombeta, à espera que a montanha devolva a mesma melodia. E devolve, numa perfeição acústica que nos faz pensar que ficaríamos ali horas em admiração. Hoje, à distância de uma semana dividida entre a cidade e as paisagens da Baviera, não tenho dúvidas que as minhas ideias construídas em suposições foram destronadas pela beleza e simplicidade dos factos. A Alemanha pode não ter o melhor clima mas mesmo com dias de chuva regressei com aquela sensação boa de que gostava de voltar.

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