Escaldão e bolhas nos pés

São as mazelas que ficaram do dia de ontem porque tudo o resto foi saldo positivo de uma equação que é simples: tempo livre, mochila às costas e vontade de descoberta.
Os pés estão assim porque ninguém se lembra de ir passear de sandálias com 0,05cm de espessura de sola e o escaldão porque caminhar durante mais de uma hora debaixo de 31° e apenas com protector na cara resultou em braços churrascados.
O dia tinha tudo para revelar quando já com menos de três minutos da hora de partida do comboio eu não sei em qual devo entrar. Ainda tentei o intercontinental mas quando vi o "garçon" de bordo percebi que estava errada e acabei naquele que estava mais lotado, embora a quem perguntasse me confirmava que ia sim para Konin. Mas eu queria era Kórnik. E como nesta terra os "k's" são um flagelo devo ter perguntado trinta vezes se estava no comboio certo.
E o apeadeiro de Kórnik chegou para meu sossego e em poucos segundos, preocupação. Sim, porque verificar antes se o centro da vila ficava perto da estação daria um certo jeito. E aprendo aqui a primeira lição: nem sempre as minhas preferências (comboio) se devem sobrepôr às necessidades (autocarro).
Por entre campos de centeio, de milho e de uma outra verdura que não consegui descortinar eu caminhei ao longo daquela recta de estrada, que tinha mais cruzes nas bermas que o cemitério da aldeia. Logo aí deu para perceber que estava em terreno seguro e foi rogar para que nenhum dos carros me levasse em boleia acidental.
Ainda duvidei das previsões do telemóvel que davam como certos cinquenta minutos a andar até ao castelo mas quando lá cheguei dei-me por vencida e perguntei porque raio os reis construíam poisos em sítios no meio de nenhures. Talvez por isso o castelo tenha sobrevivido, tempos mais tarde, à maldita guerra e esteja ali no seu estilo senhorial e ladeado pelo parque de estilo inglês para nos oferecer um bom par de horas de visita.
Que deram para tudo, desde passeios pelos jardins, leitura na esplanada, soneca na relva mesmo quando um palco gigante com músicos metaleiros fazem sound check, passeio de barco no lago e caminho turtuoso de volta a pé para a estação, namorando as cerejeiras da beira da estrada e deixando dúvidas aos cinco habitantes daqueles caminhos que por certo se interrogavam porque dava bons dias. Pois bem, na minha terra mesmo quando não se conhece dá-se bom dia e eles nunca saberão onde isso fica mas não importa.
À chegada ao apeadeiro isolado fazia toda a lógica aquilo que via nos placards informativos. Pois se tinha chegado no comboio num sentido, era normal que o comboio de volta fosse do outro lado. E foi desse lado que vi passar o primeiro regional perdido. E do lado onde eu estava passaram dois comboios de carga. Até que ele apareceu, vindo não sei de onde. O homem da bicicleta.
E se eu, minutos antes, não percebi o que o altifalante dizia, como ia perceber o que me perguntava o homem do outro lado da linha? 
E eu disse Poznan e apontei a direção e ele falou, falou e eu imaginei que me disesse que era do outro lado que devia apanhar o comboio e que funcionava tudo numa linha só e que do lado onde eu estava só viajavam comboios de carga. Ele podia ter dito isto ou coisas completamente diferentes e o facto de eu não me ter apercebido da sua chegada ao apeadeiro começou a assustar-me e o poder da imaginação a fabricar o medo e o medo a instigar a imaginação e eu a pensar que se tivesse de fugir não conseguiria porque os pés têm bolhas gigantes e estão doridos. E estava sem bateria no telemóvel e infelizmente só sei um número de telefone de cabeça, que por sinal é o de casa da minha mãe mas que ela desativou há coisa de uns meses. E o homem sorri. E eu digo que não falo Polaco. Apenas lhe digo obrigada e ele chama-me para me mostrar algo no placard de informação. Tem os olhos claros, cabelos grisalhos e um sorriso bom. Não pode ter maldade, portanto. Pode ser um louco, com a sua bicicleta de cestinho, mas de onde apareceu ele? Vindo de que caminho se ali não passa ninguém?
Ele olha para o meu guia que aperto contra o peito. E fala e fala. E eu sorrio e faço filmes na minha cabeça e repito o agradecimento e sento-me, até que novo sinal sonoro, mais umas quantas frases ditas, a cancela mais à frente a fechar-se e as luzes ao fundo e o silvo metálico anunciam outro comboio. Não é o meu. É o dela. De blusa florida, carregada de sacos na mão que ele se prontifica a colocar no cestinho. E prepara a bicicleta onde ela se senta de lado e seguem os dois pelo caminho, não sem antes lançar aquele sorriso. Sim, de bondade. Definitivamente. E eu, aguardo, agora serena e convicta de que aquele momento tinha sido o melhor do dia. 

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