À noite...


Todos os homens polacos são pardos! Perdão, parvos! Ou bestas!
Ou então estarei a exagerar porque segundo o meu colega de trabalho aquilo que aconteceu esta quarta-feira à noite foi, afinal, uma palmada de motivação.
Um dos meus lugares favoritos na cidade é o lago ao pé da minha casa. À sua volta, vi as cores de Outono quando aqui chequei. Observei vezes sem conta as aves pousadas em bandos, num gralhar que interrompe o silêncio de qualquer fim de tarde. Vi o Inverno chegar e o gelar das águas empurrando as aves para o centro até que partiram para outras rotas. Descobri o bosque à volta deste círculo de água e o zoo que é vizinho da linha de comboio a carvão, que parte dos jadins vizinhos ao lago.
Quase todas as vezes fi-lo a correr ou a caminhar. Outras tantas vezes sentei- me a ler e a observar os banhistas corajosos de verão ou provei um dos melhores Siernikis da cidade, no café a meio do caminho.
Assisti a provas de remo e um dia aventurei-me a descer o monte junto à pista de ski naqueles carros tipo montanha russa.
O lago é um centro comercial aberto. Porque aos domingos famílias inteiras rumam até lá e fazem a volta dos tristes que só é triste no nome.
Aos fins de tarde há sempre namorados nos inúmeros bancos ao longo das margens, há pessoas a correr, a caminhar, pais a ensinar os filhos a patinar e a andar de bicicleta. Há o hotel de grandes varandas viradas para o lago e, não raras as vezes, há as típicas fotos de casamento
O lago é artificial, foi construído na década de 50, mas a vida que tem à sua volta fez-me duvidar desse facto.
E eu poderia continuar a exortar o quanto vivo este lugar pelo que é e por ser o único ponto de água que tenho mais perto.
Durante todos estes meses já perdi a conta as vezes que fui ao lago. Faz parte da minha rotina. Nunca tive medo de andar por ali à noite porque nunca me senti insegura em nenhuma parte desta cidade.
Até à passada quarta-feira, dia ou noite da “palmada motivacional”.
Eu corria do lado das termas, numa zona onde existe menos luz à noite e apenas os focos das bicicletas ou as florescências dos que correm rasgam a escuridão. Já me tinha cruzado com outras pessoas, corria no meu vagar e no meu duelo de consciência entre o desiste e continua até que levei uma valente palmada no rabo. Não foi um apalpão, uma “mãozada” como lhe chamávamos no ciclo. Foi uma palmada! E numa fracção de segundos ganhei asas nos pés, numa tentativa estúpida de alcançar aquela abécula que seguiu caminho pedalando e enfiar-lhe as chaves de casa pelos olhos dentro. Mas estaquei de raiva de medo e hesitação, sem saber se voltava para trás, se continuava, se chamava a polícia ou se continuava a correr.
Corri. Sempre de olhar sobre os ombros e alerta. 
Que não se espantem aqueles que, de impulso, eu empurrar da bicicleta que se aproxime sem aviso.
À noite não há gatos, há estúpidos pardos!


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