quarta-feira, novembro 16, 2016

A minha praia, sem comboio

Não me lembro da minha praia sem esse ícone de boas-vindas. Uma carruagem de comboio, das antigas, sem que eu saiba precisar pormenores da instalação, mas lá estava ela, adaptada para bar e restaurante. O que é certo é que haviam muitas teorias em torno da vinda daquele vagon para ali. Imagino outras tantas sobre a sua retirada.

Para mim, o que importa é que deu segundo nome à praia, a sua identidade. E se aquela era a praia da “Neves” deixou de o ser. O comboio estava lá.
Os fins de tarde eram ali. Lembro-me bem do dia em que entrei a primeira vez na parte inferior do bar, de lajes lisas e tudo aquilo me parecer absolutamente incrível, moderno e acolhedor. O mesmo pensara quando espreitei à socapa o restaurante, porque nunca lá comi, embora fosse para mim glamorosa aquela ideia de jantar ou almoçar dentro de um comboio sem nunca ter andado em nenhum, aquela data.

Os regressos dos dias longos de praia eram ali mesmo, na esplanada, onde alguém sempre pagava uma saca de cheetos, com um montinho de ketchup ou um gelado.
Na praia, nesses belos dias de maré baixa, jogaram gerações de rapazes. Alguns deles já não estão entre nós.
Podíamos ir de manhã, escolher a melhor duna, deixar as toalhas a marcar o sítio durante a hora de almoço e voltar à tarde, para o lugar abrigado da nortada.
A sério que o vento é frio, a água também e a areia corta-nos a pele e ainda assim insistem em referenciar a praia como praia de nudismo, nessas bulas de fugas e destinos. Vi mais vezes gente de Braga e Guimarães enrolada em mantas do que corajosos nudistas!

Depois, vieram os Verões sem que o comboio abrisse, vieram as mudanças sucessivas de gerência, a decadência do sítio e o comboio ficou ali, junto ao pinhal, continuando a emprestar o nome à praia.
Vieram as mudanças drásticas na nossa costa, a diminuição do areal a olhos vistos como se a cada dia que passa perdêssemos um pouco mais.

Da praia e de identidade também. Esta semana foi o comboio.


(o que resta do local onde estava a carruagem - credits: Rosete Cunha)

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