As incoerências do Natal



Estavam no presépio também.

A árvore de Natal era uma extensão do presépio, esse sim, importante porque haveria de ser diferente todos os anos em tamanho e na disposição das figuras. Os pequenos bonecos de barro, uns já partidos e colados dezenas de vezes, seriam dispostos sempre com uma história de fundo. Sim, havia uma espécie de guião na minha cabeça para aquilo que reproduzia sobre o musgo verde e cheio de bichos que trazíamos dos montes.

Era sempre tudo dificultado porque lá estavam os camelos que carregam os reis magos e esses animais sempre os imaginei em desertos áridos. E o meu cenário era o repasto verde e viçoso onde, pelo menos, uma vintena de ovelhas pastavam. E moinhos de vento e casas de aldeia não combinavam com uma cabana de palhinhas que seria, supostamente, abrigo improvisado daquela família que, por via das circunstâncias, adoptara um burro e uma vaca. E o meu boneco do burro mais se parece com um toiro de ganadaria Ribatejana e já não havia história que salvasse o cenário. Nem o homem que supostamente traz uma oferenda ao recém-nascido mas que vem com chapéu de aba e traje de rancho minhoto.

E é então que ainda sobra ela.

De bilha de água na cabeça ainda que não existam poços e riachos pelas redondezas, de saia colorida, a antecipar modas e tendências, coloca-se no centro daquele pequeno mundo onde não existem fronteiras entre ocidente e oriente. É ela que, sempre de braços erguidos representa, a coragem, a determinação e a força bruta do trabalho. É uma mulher que terá subido montes e descido vales, afagou as ovelhas por onde passou e procurou no moinho o seu ponto de orientação. E nunca desistiu, mesmo que tenha caído e a bilha. vá partida. É assim que imagino esta mulher. E chegará sem oferenda porque a água é preciosa para a família mas a sua bondade e ternura não esgotam nunca. E a sabedoria e a inteligência que nunca serão confundidas com arrogância e a sua beleza mesmo quando não usa cremes e batôns.

Passados estes anos, sempre que pego na mulher da bilha, e ainda que se tenha perdido a ilusão para as histórias, penso que não importam os cenários, os intervenientes ou a parte do mundo onde se viva. Espero é que haja sempre um bocadinho daquela mulher livre, de bilha na cabeça, para resgatar para a minha vida.
E que isso possa ser sinónimo de esperança!

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