O senhor Rui

O senhor Rui quase sempre está ao telefone ou a fumar. Todos os dias, na Rua Direita, ali está ele de camisa aos quadrados e avental curto.
Quando não o vejo é porque regresso demasiado tarde, já não há o frenesim dos colégios, do pára-arranca dos autocarros e ele já não está a chutar o tempo no passeio, em frente ao estabelecimento que governa. Eu vejo-o e acho que ele também me vê.
Não sabe que me doem os olhos e que vou num processo de desligamento. Não sabe que vou a pensar quantas histórias terá ouvido ao balcão, enquanto serviu petingas ou pernil, se está contente ou aborrecido com o fornecedor do vinho de cooperativa. Não sabe que comecei o dia à espera que o semáforo abrisse e a ver a senhora que empurra o carrinho do neto sempre com aquele ar sorridente. E que a imagino vinda de leste, nessa presunção de esterótipo que poderia desfazer-se do mesmo modo, caso o neto seja filho. Está cada vez mais crescido o miúdo e, pelo menos, um ano já leva de ar irrespirável todas as manhãs a serpentear carrros. E ela continua sorridente. Não sei se essa mulher faz a rua toda, mas imagino-a a dizer bom dia ao senhor Rui.
Ao senhor Rui, se for esse o seu nome.


foto: quadro da sala de estar do Hotel Douro Scala.


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