O Zé do vale queimado




Voltámos.

Na dureza do frio, o vale queimado continua lá mas com mais esperança em tudo o que já se renovou, construiu e reproduziu. Doem-nos as mãos, na aspereza e dureza das tarefas de um dia. É um dia apenas. Não nos enganemos. Nunca nos enganemos! É nisso que penso quando vejo aquele olhar do Zé pastor. E ele não tem essa sorte de ser apenas um dia. De corpo frágil, olhos meios claros e aquela figura que resvala da matreirice para a clemência de um abraço. Aquele olhar vago, que vê uma terra que não é a sua mas que lhe dá muito mais do que essa onde nasceu. É um olhar de perda, de cansaço, de solidão e desamparo. Ou então é o Zé apenas. De roupas miseráveis, cheiro a borrego, mazelas no corpo dos vícios que não curam a alma. Não tem ídolos e não conhece aqueles a quem choram na TV, não sei se sabe ler ou escrever mas aparenta o dobro da idade que tem.

Mesmo que não voltemos é por ele que vou perguntar. O resto está muito bem encaminhado.

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