A vida dele, talvez

Ele olhava para o telemóvel como quase toda a gente que seguia no metro. Se o mundo acabasse naquele momento eu não conseguiria cruzar um olhar com ninguém.

Tinha cabelos compridos desordenados, barba não muito aparada, vestia calças rasgadas, um casaco verde tropa e tinha ar de artista. Com ele, uma pequena caixa gasta.

Perguntei-me em que rua teria estado a tocar, quem foram as pessoas que lhe deixaram uma moeda, quanto teria ganho durante o dia, onde viveria, onde iria estar no dia seguinte e no outro e quais as músicas que gostava de tocar. Onde teria estudado música (se o fez) e quais seriam os seus sonhos.

Pensei que, se saísse na mesma estação, talvez o pudesse ajudar a levar os amplificadores.

E então levantou-se, a pequena garrafa de água caiu, eu hesitei para a agarrar, olhou-me e sorriu. Um sorriso luminoso. Com muita calma segurou todas as tralhas e saiu.


Ficou por perguntar se era de um violino, aquela caixa. A vida dele, talvez.



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