As pérolas






[Opernhaus Zurich  | 26.01.2019]

Havia um piso inferior onde podíamos deixar os casacos e, espantosamente, não se pagava por isso.
Naquela enorme pedra polida do centro da sala colocámos todos os nossos casacos, gorros, luvas e tentamos que os jeans ou os vestidos de malha cardada passassem despercebidos entre saltos altos, vestidos clássicos, maquilhagens sóbrias e uma ou outra aberração. Como aquela senhora que decidiu mudar de sapatos, ali mesmo, no bengaleiro mas que, poderiam ser os mais caros da quinta avenida que não disfarçariam o mau gosto com que se vestira. Eram assim, os primeiros minutos da ópera em Zurique.
Depois, cada uma foi para o seu lugar e fomos descobrindo porque é que os bilhetes foram tão baratos para aquilo que é a média de preços naquela cidade. Visibilidade reduzida, dirão muitos, eu diria a arte de ganhar um torcicolo, ou fazer amizades com a pessoa do lado, visto passar grande parte do tempo com a cabeça encostada no seu ombro.
Subi ao primeiro andar e a senhora que aguardava pela hora da abertura das galerias informou-me que o meu lugar tinha acesso por ali. Quando ecoou o sinal de abertura de sala eu procurei o número vinte nas cadeiras de veludo. E logo percebi que iria ver o Romanovsky de um modo dividido. Enquanto toda a minha atenção ia para o lustre da sala e para pinturas do tecto, naqueles anjos sempre roliços, rodeados de flores e talha dourada, ele chegou. Muito simpático e com um sorriso perguntou-me se aquele era o meu lugar. Eu disse-lhe que sim mas como tinha apenas certezas do número da cadeira, mostrei-lhe o bilhete. Havia mais duas filas e eu estava na errada. Todas elas tinham um número vinte mas eu sentei-me na primeira fila, junto ao varandim. Sorriu e disse que iria para trás sem problema e  ficaria assim junto ao homem que o acompanhava. Eu agradeci porque, de todo o modo, aquela ópera seria mais votada a ouvir do que a admirar os grandes planos do cenário. 
Não se viu um único ecrã de telemóvel durante o espectáculo, nem mesmo no intervalo. Houve apenas um lapso no bater de palmas entre andamentos num mesmo acto. Entre andamentos, o silêncio era maior que o silêncio. Mas tudo o que é tão perfeito deriva em detalhes funestos.
Não se podia beber água não fosse haver estalidos de garrafas de plástico ou um acidente qualquer tão grave que seria o apocalipse. Quiseram cobrar-me dois francos por um folheto, de quatro páginas, e eu devo ter feito um olhar de reprovação tão grande que o assistente me ofereceu o mesmo.
E como tudo numa ida à ópera é faustoso, de aparências e tendencialmente de classes nobres, tossir é algo que não é permitido porque diminui a atenção daqueles que verdadeiramente apreciam a arte.
Nadir, Zurga e Leila faziam parte de "Les Pêcheurs de perles" e eu desconfio que Bizet, quando escreveu o libreto não pensou nos porcos que não tossem e a quem às vezes também  se servem pérolas. 


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