Numa rua às cinco da tarde

Eu quis fotografar aquilo que eu dizia que já vai sendo raro - um posto de correio de rua. E acabei por fotografar a ponta de um iceberg de algo não tão raro mas que nunca nos aparece assim, tão à vista. Ela estava ali, dormitando no banco do jardim e ele, noutro banco atrás, de cara coberta com um farrapo preto. Tão negro como a sua alma no primeiro momento que se terá rendido ao material que tinha disposto no banco. Tabaco, molhinhos de substâncias embrulhados em mortalhas, o papel prata, o isqueiro e mais coisas que o meu olhar desviado não viu. Outros dois homens em pé, no murmúrio sinistro das cinco da tarde. Numa rua principal, onde descansam à soleira os homens do talho mais atrás, conversam pessoas na entrada da igreja evangélica, redentora ou algo parecido, o lixo brota das esquinas, os pombos comem dele e às tantas parece que estamos noutra dimensão. Quase nos esquecemos dela quando, depois da câmara municipal, descemos a escadinhas e vamos dar à ladeira da Casa da Cerca e ao Miradouro da Boca do Vento. Aí abre-se o Tejo e vemos a brancura cândida de Lisboa. Vista dali, que nunca sabemos o que nos reserva em todas as suas ruas às cinco da tarde.


[Rua Capitão Leitão - Almada]

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