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Perder um voo e não ter ameixas

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Aquele momento em que pego no telemóvel para ver os boarding passes e tomo consciência que perdi o voo deixou-me ali no meio dos atropelos de toda a azáfama de um aeroporto. A mochila a descair pelo ombro e uma vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. No caminho para o campo explicava à minha mãe como era possível tamanha confusão de horários, marcações e reservas. Tanta falta de memória como quando lhe perguntei três vezes como se chamavam as flores que limpávamos da erva milhã. Estoma repetiu. As batatas estão floridas mas pior do que perder um voo é saber que este ano não há ameixas devido ao inverno rigoroso. Nunca consegui decidir se preferia as brancas ou as vermelhas mas dividia o estômago por ambas, tiradas directamente da árvore. E se este ano não as tenho que não me falhe a memória das vezes que me sentei na sombra a comer sem regras.

A arrumar papéis

Ubatubinha Tapera Maguariquessaba Grumixama Araçatiba Parnaioca Lopes Mendes Nomes de localidades que apontei no pequeno caderno durante a viagem ao Rio. O último é considerada a segunda praia mais bonita do Brasil.

O momento exacto

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O desta foto. Ou o momento em que subia a pequena rua onde se começa a ver a escarpa de verde no monte do Bom Jesus com os casarios de hortas, japoneiras e vinhedos. E aquele vermelho ocre da casa junto à estrada que, por certo, ficaria ainda mais bonito se o sol abrisse as cores. E as 20:45, o exacto momento em que o sol se põe e o vejo mais vivo entre as nuvens negras que teimam em permanecer. E o momento em que estoiram os foguetes junto à igreja de Sta. Eulália e calam o altifalante onde já passou fado de Coimbra. O momento em que eu corro rua abaixo e estala o meu joelho e eu numa dor aguda vou ao chão.

#rio2016 - III

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As pernas reclamavam movimento depois de tantas horas a voar. O verde das montanhas e os rios estavam cada vez mais perto e eu confirmava assim ser possível sobreviver a um voo de longa distância. O bafo de ar quente na saída do aeroporto era a amostra de um Outono diferente. O trajecto desde o centro da cidade até ao Leblon é feito com a lua bem redonda e vermelha no horizonte prendendo toda a atenção, roubada apenas quando o taxista aponta entusiasmado para o Corcovado. Até estarmos sentados no boteco Jobi é pouco o tempo porque a noite já vai longa e a picanha e a caipirinha reclamam o seu turno. Na rua há a animação suficiente de um Bairro Alto mas com mais música, mais ritmo e mais alegria. E seria assim, nas rodas de Samba do Rio Scenarium, em duas noites sem desculpas para dois pés esquerdos e muita falta de jeito.

#rio2016 - II As corridas da Gávea

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O Irineu era uma das palavras que faltava para decifrar o parágrafo entusiástico em que foram relatadas as corridas da Gávea. Novamente o amigo Google ajudou na reconstrução da história relatada por carta, à mistura com palavras de saudade, de perguntas à ausência de resposta, de como vai o câmbio e às notas de cabeçalho em que se lê: “tua comadre e minha deu a lús dia 15 dois meninos”. O meu avô nunca teve um carro mas por certo gostou de saber que estiveram animadas as corridas em 1935, que se mudaram pneus em seis minutos, um Argentino chamado Carú venceu a prova e os portugueses ficaram em 2º, 4º e 6º lugar com carros que levaram de Portugal, tendo parado três vezes enquanto o vencedor apenas uma. Já o Irineu Correia antes de completar a primeira volta caiu no rio próximo do Hotel Leblon morrendo cinco minutos depois.

#rio2016 - I

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Talvez o meu desassossego pelos sítios venha de ti, avô. “Bubu”, como eu te chamava. Pela pequena arca coberta de pó e de memórias a minha curiosidade nunca foi menor do que a tua audácia quando decidiste ir além-mar. Entre fotografias onde apareces como um galã, com fato e chapéu de aba, cartas dirigidas às pessoas com quem trabalhaste, o teu cartão de colaborador do mercado de frutas, entre vários escritos, o meu interesse pelo Rio veio assim. Através de ti, e das tuas memórias! E se os lugares são de afectos eu não podia falhar este, pela curiosidade, pela ligação de estar num sítio onde, há quase 90 anos atrás desembarcaste e preencheste nove anos da tua vida. O Rio para mim é um punhado de imaginação em torno de meia dúzia de papéis que guardo religiosamente e de todas as histórias que, em boa verdade, não sei se as contaste enquanto embalaste as minhas tropelias de criança ou se, eu quis que assim fossem. Ainda me lembro da minha insistência com o programa “Ponto...

Ganhar o dia

Eu hoje arranjei determinação para ver o nascer do dia, arrancando algum esforço ao corpo e tentando distrair-me do caos felino que vai em casa. E quando o azul do céu já era mais azul, e a luz do sol rompia abrindo a manhã eu descia a rua para receber um "bom dia" vigoroso, com alegria e sem olhar desviado. Ali estava ela, a colocar caixas de hortaliças, cebolas e verduras frescas. A senhora de uma mercearia da rua que no meio da suas tarefas madrugadoras lembrou o quanto faz a diferença dar sem esperar em troca.