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[ #wordlog #diárioergonómico ]

  abrem-se papelinhos com chocolates, enquanto dizemos com determinação "é só mais este". a casa é o trabalho,  é o tempo, a pausa, o dia vagaroso, a noite corrida, a luz e o escuro, ecrãs, lampejos. podia acordar, adormecer e morrer no mesmo lugar. sentada. ergonomicamente. sem que o mundo se agitasse, e nenhuma palavra proferida ou ferida ou para diferir. nada. chove. é a única diferença que noto ao dia. quando secarem as bátegas, as vidraças estarão sujas. e se fosse o mesmo com as lágrimas? passávamos um toalhete de limpeza de caos e estaríamos novamente a abrir papelinhos de chocolates.  

[ #wordlog #música ]

  De véspera, num concerto de celebração da cultura rom, todos ficámos um bocadinho eufóricos com a música.  Houve invasão de palco, pulou-se e gritou-se ao som electrizante de quem carrega uma cultura, um legado e uma história quase nunca feliz. A história de discriminação, segregação e genocídio. Éramos tão diversos e estávamos ali, grande parte sem perceber o que  os músicos falavam no seu idioma,  mas as palavras pouco importavam. Hoje, num ambiente completamente diferente, entre outras coisas tocaram-se  obras de Maurice Ravel, que verteu a sua influência basca na música. O solista a dirigir-se à plateia em inglês, e tendo ascendência italiana e portuguesa. A maestrina colombiana e podíamos continuar por aí adiante se alargássemos o mapa de influências de cada um dos presentes. E o mundo continua a erguer cortinas de ferro, muros de betão, a escavar fronteiras e a incentivar o ódio xenófobo e a incluí-lo em programas eleitorais. Triste.

[ #estudossociais ]

- tem sintomas? E eu diria que sim, uma moinha estranha, um desalento, uma tristeza grande, uma falta de perspectiva, de acreditar em mim e nos outros. Sentir que o "nosso bairro" não muda para melhor, que não há um caminho para todos, para responder ao que cada um mais precisa – viver o melhor possível com os seus direitos salvaguardados. Sem balelas, sem merdas e frases feitas de colocar em legendas do pôr do sol. As imagens dos últimos dias ferem, são angustiantes, são demasiado violentas. São efémeras, também. Porque o mundo arranjará outras com as quais nos vamos impressionar ainda mais e questionar outro tanto.  Partilham por aí uma imagem de uma mulher totalmente tapada, em pé, de burka, numa praia junto à água (em que se vê o homem na água, com uma criança - fonte: instagram do Hugo Válter Mãe) e eu lembrei-me do passado domingo, na Praia Grande, as duas situações em que não fui capaz de dizer nada.  Rodeada de “pessoas de bem”, de gente educadíssima, com filh...

[ recobro ]

  Estamos assim, como que à espera que o Zambujo chegue para cantar. No recobro. Essa palavra  que sempre me lembrou trabalhos em estuque, não sei porquê. A caminho dos dois anos em distâncias mal medidas, primeiro nas filas para a lei do açambarcamento, depois para a introdução à massa mãe, depois para o vinho antes das oito. Ainda é difícil esconder o nariz, para muitos. E não conseguimos a imunidade, nem a humanidade e nunca um nadinha de humildade. Humidade, às vezes. Hoje não cheirava a produtos "Mustela" misturados com um toque de pureza de álcool. Não vi as paredes em tom de rosa, com aquele quadro de bebé gorducho e sorridente que me prendia a atenção. Nem vi a balança forrada com um padrão de bonequinhos onde, certamente, também posei os meus refegos. Dessas memórias muito vagas da vacinação na infância, ficaram, sobretudo, os cheiros e uma caderneta de vacinas presa por um agrafo ferrugento. Hoje, havia um toque de caril e a supervisão de Ganexa, deus da sorte e...

[ corpo morto ]

 Fica mais bonito este voyeurismo-confinado-à-janela, no verão.  No inverno, as janelas estão baças,  dá vontade de escrever "pqp" mas quem lê somos nós. Eu, neste caso.  Às vezes chove e a colina da Rocinha amanhece com aquela massa de nuvens carregadas, tornando tudo mais cinzento, mais triste. Os homens da-obra-que-nunca-mais-acaba trabalham à mercê do tempo e eu penso sempre que eles preferem menos frio e chuva nos ossos.  As varandas não têm os toldos esticados e as roupas estendidas, o que lhes dá menos colorido e aquela sensação de estarmos na Costa Amalfitana, mesmo sabendo que vemos a Pontinha ao fundo.  É certo que o terreno baldio em frente transforma-se num lago de Inverno, os patos da Gulbenkian vêm aqui fazer o seu Erasmus e essa é a parte mais bonita. Mas os vizinhos não vêm tanto  à varanda fumar e beber café, dando tempo para ele lhe ajeitar o cabelo na face dizendo algo bonito e romântico - espero e imagino eu - ou,  simplesmente...

[ o R ]

 Érrrrrrrr. Recorda o R, que não resvale o R. Riso, ritmo, rio. Romance, romã com canela. Ricochete, recordações, reparos. O R da rua, da Rita da balada, Põe-te em guarda ao R. O rato, roeu a rolha do rei de Roma Não gosto do frio, Nem da redoma do R. Um reduto dos dias Razia, rudeza de rotina ruim. Ruir numa espécie de requiem. 

#númerovinte

 Os últimos dias confirmaram-lhe uma série de intuições e ela continua sem acertar nos números do euromilhões. A distância a que se obrigou veio daquela obsessiva basófia que vinha do outro lado e que já se tornava muito mais do que insuportável. Lembra-se da foto, do dia e do propósito para o qual ela foi tirada. E depois, aquele olhar da mulher morena, a desafiar quem estava por detrás da máquina, um olhar cúmplice, gozão, atrevido e de cumplicidade. E ela anteviu tudo desde esse dia.