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[ #wordlog #sonhos ]

  O meu pai falava muito em estricnina. Para qualquer coisa que visse na TV que lhe fosse absurda, provocada por alguém de muita má rés.  Cheguei a temer pelos gatos que às vezes subiam à mesa. Eles não eram maus mas a verdade é que eu não sabia qual a medida de maldade exigida para que o castigo fosse em veneno. Por estes dias sonhei que o homem que tem o ódio nos olhos comia uma sopa vermelha, espessa a saber a terra como a sopa de  beterraba e depois ficava muito hirto e branco. 

[#wordlog #esplanada ]

  os pássaros saltitam entre o reboliço e  procuram as migalhas que caem, como pequenos tesouros. vê-los é a única ordem na desordem urbana. está sol, a esplanada está cheia de conversas, de olhares que não se cruzam, de ecrãs tácteis, de desconhecidos que não vão chegar a falar-se. eu vejo os pássaros e penso que é por eles que se põe samba em volume de chegar ao outro lado do Atlântico. Só pode ser por eles. São os únicos que dançam. 

[ recobro 3.0 ]

 Aqui estou eu, de novo, à espera que a  orquestra comece a tocar. Desta vez, sem deuses ganaxis e um pouco mais a Norte.  Passou aquele verão, onde todos nos abrimos de esperança e daquela doce ilusão de que havia um caminhar para o antes, mesmo que isso não seja mais possível em quase todas as vertentes. Já todos sabemos que o melhor será não ter o mês de Dezembro. E Janeiro também não. O Carlos Drummond de Andrade que me perdoe mas o ano compõe-se de dez meses e não quero o natal e pós-natal para nada. E o calendário avança e as diferentes classes da saúde continuam com dias negros, a educação dos miúdos continua num pára-arranca, a cultura ora fecha ora abre, medidas estruturais para lidar com o acesso massivo ao sistema de saúde não sei se foram tomadas e os nossos governantes brincam aos orçamentos por validar e a ver quem tem mais "pets" para cuidar.  Continuo a acreditar na ciência até porque os banhos de luar nunca me deram muitos resultados. Além do mais, p...

[ #wordlog #nocturnos ]

 Está um início de noite fria. Saio das sombras escuras do parque para a dar a volta que desenha um quase coração no mapa. Não sei porque fraquejam tanto as lâmpadas de todas as vias. Tanto como os meus joelhos nos primeiros metros descompassados. Vejo-as junto ao estádio, ombros desnudados, tops justos, estão concentradas no reflexo que a vidraça lhes devolve. Arranjam o cabelo como se do lado de lá estivesse uma objectiva em busca de uma perfeição que não existe. Nunca vai existir aos olhos delas. Está frio e elas são verão escaldante. Tropeço nas raízes das árvores que brotam do asfalto, como que rompendo a sua condição. Os miúdos da trotinete passam em voo rasante e gritam ferozmente. Nem as raízes das árvores os querem fazer parar. Dou a volta ao parque. Eles envergam sacos pesados e vão em direcção ao ginásio. Cheira a perfume fresco guardado em longas horas em fatos elegantes e apertados. Passa quem corre velozmente. Tossem, cospem, suam. Não sei se recebo deles comissões de...

[ #wordlog #diárioergonómico ]

  abrem-se papelinhos com chocolates, enquanto dizemos com determinação "é só mais este". a casa é o trabalho,  é o tempo, a pausa, o dia vagaroso, a noite corrida, a luz e o escuro, ecrãs, lampejos. podia acordar, adormecer e morrer no mesmo lugar. sentada. ergonomicamente. sem que o mundo se agitasse, e nenhuma palavra proferida ou ferida ou para diferir. nada. chove. é a única diferença que noto ao dia. quando secarem as bátegas, as vidraças estarão sujas. e se fosse o mesmo com as lágrimas? passávamos um toalhete de limpeza de caos e estaríamos novamente a abrir papelinhos de chocolates.  

[ #wordlog #música ]

  De véspera, num concerto de celebração da cultura rom, todos ficámos um bocadinho eufóricos com a música.  Houve invasão de palco, pulou-se e gritou-se ao som electrizante de quem carrega uma cultura, um legado e uma história quase nunca feliz. A história de discriminação, segregação e genocídio. Éramos tão diversos e estávamos ali, grande parte sem perceber o que  os músicos falavam no seu idioma,  mas as palavras pouco importavam. Hoje, num ambiente completamente diferente, entre outras coisas tocaram-se  obras de Maurice Ravel, que verteu a sua influência basca na música. O solista a dirigir-se à plateia em inglês, e tendo ascendência italiana e portuguesa. A maestrina colombiana e podíamos continuar por aí adiante se alargássemos o mapa de influências de cada um dos presentes. E o mundo continua a erguer cortinas de ferro, muros de betão, a escavar fronteiras e a incentivar o ódio xenófobo e a incluí-lo em programas eleitorais. Triste.

[ #estudossociais ]

- tem sintomas? E eu diria que sim, uma moinha estranha, um desalento, uma tristeza grande, uma falta de perspectiva, de acreditar em mim e nos outros. Sentir que o "nosso bairro" não muda para melhor, que não há um caminho para todos, para responder ao que cada um mais precisa – viver o melhor possível com os seus direitos salvaguardados. Sem balelas, sem merdas e frases feitas de colocar em legendas do pôr do sol. As imagens dos últimos dias ferem, são angustiantes, são demasiado violentas. São efémeras, também. Porque o mundo arranjará outras com as quais nos vamos impressionar ainda mais e questionar outro tanto.  Partilham por aí uma imagem de uma mulher totalmente tapada, em pé, de burka, numa praia junto à água (em que se vê o homem na água, com uma criança - fonte: instagram do Hugo Válter Mãe) e eu lembrei-me do passado domingo, na Praia Grande, as duas situações em que não fui capaz de dizer nada.  Rodeada de “pessoas de bem”, de gente educadíssima, com filh...