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Sorri

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Hoje, no comboio, enquanto fixava o olhar na porta de saída tentando perceber de que lado era a plataforma o meu ar seria de agravo. Tanto, que o revisor quando trocou olhar comigo, sorriu, falou e quando lhe disse que não falava Polaco fez um gesto de "obrigatório sorrir". Há uma linguagem universal e naquele momento eu percebi que não me posso esquecer dela.

Escrever

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Apetece-me escrever ou ficar naquele banco horas a fio a pensar no que poderia ter escrito sem nunca o ter feito. Escrever sem o velho computador que se apagou de vez e que poderia ser motivo para me lançar novamente na escrita dos pequenos cadernos mas é hábito que custa a recomeçar. Escrever sobre a meia maratona que consegui correr faz hoje precisamente uma semana. Da alegria que foi ter concretizado uma coisa tão simples para tantos e tão difícil para mim e para o meu corpo. Posso nunca mais participar numa outra corrida do género mas foi das experiências mais incríveis, toda aquela gente a correr de sorriso estampado no rosto, as pessoas a apoiar nas ruas, o colorido, a festa que se gera em torno do desporto e aquele casal que me interpelou perguntando se sou mesmo portuguesa porque haviam estado a correr a meia-maratona de Lisboa. Acredito cada vez mais que o mundo é uma ervilha cheio de conexões e de redes de partilha e no fundo conhecemo-nos todos ou temos um ponto comum d...

O mar

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Não está aqui. Mas consigo ver para além daqueles edifícios e daquele rosa alaranjado no horizonte um sol que beija o horizonte enquanto sacudo a areia dos pés. Mesmo em frente ao mar. Numa praia. Em Esposende, em Sintra, Cascais, no Alentejo ou no Algarve. Em todas as minhas praias. Os domingos nunca foram fáceis, ou porque sempre me impuseram distâncias, fazer km´s até outro lugar, ou porque o stress do trabalho começa a corroer. Hoje não foi fácil não ter o mar por perto, essa imensidão de água que, mesmo sem me dar respostas é dos melhores ouvintes do mundo.

Aos 33

Sonho com uma casa com jardim e um pinheiro manso. Não é uma piscina. É um pinheiro manso como existe em todas aquelas casas que conheço e que sempre me suscitaram mistério, curiosidade e uma sensação de que escondem interiores de conforto. As casas dos pinhais, casas de praia, à beira mar ou à beira rio. Vejo-as na foz do Rio Neiva, no pinhal de Ofir ou na marginal de Esposende, no caminho para a praia das maçãs em Sintra e em tantos outros sítios que já visitei. Não é pelas casas, é pelo pinheiro manso que me transmite longevidade, serenidade e robustez.  E é isso que quero para os meus 33 e para a minha vida também.

Voglio dirti

Chovia e estava muito nevoeiro e por isso não consegui ver todo o percurso que tantas vezes fazíamos junto ao Rio Douro. E de sobressalto as memórias, as perguntas, a inquietude...num braço de ferro que se perpetua.

O carteiro

E o rasgo na memória. Foi ali no meio daquele silêncio que incomoda, que mói, no silêncio do velório que faz da nossa memória uma cassete que puxa à frente e atrás tudo o que conseguimos resgatar dos que morrem e dos que ficam. Aquele homem alto, de olhos verdes e cabelos grisalhos, trouxe toda uma infância em que sempre que ouvia a motorizada pelo caminho fora e o alarido dos cães, eu gritava: " É o carteiro!". E ele sempre com ar muito paciente falava com o meu avô e este colocava o dedo no pequeno estojo de tinta e esborrachava-o no pequeno círculo desenhado no papel. E a sua chegada representava sempre, acima de tudo, surpresa. Porque nunca sabíamos o que trazia, ou, de certo modo, sabíamos sempre. E depois de todos estes anos, em que já não entrega cartas, nem percorre os caminhos com a sua motorizada eu descubro que esta não era a sua terra e aqui viveu toda uma vida, por dedicação a uma profissão. Ou melhor, esta é a sua terra porque quem vela pelos mortos e pelos ...

Hoje

Faltava apenas uma semana. Até que noutro adeus não tivesses mais vergonha de esconder as lágrimas, o lamento em fôlegos. Nunca o demonstraste antes, e não o tivesse eu visto porque seria sinónimo de que, da tua distância, não haveria nem sequer sinais da doença. Não te vergaste a ela e só por isso resististe mais de quatro anos numa moinha que teria sido fatal para tantos outros. Não me importam as ciências, os avanços se depois num simples diagnóstico se ditem sentenças. E se para uns valem as auras positivas, a alegria de viver, para outros mais do que isso não basta porque não há máteria que resista. Fomos erros, discussões, palavras ditas e omissas, mas também revelação. Mas soubeste, de forma serena, valorizar o sorriso dos netos e de quem nunca te largou da mão. E sim, tinhas um humor fantástico e acho que isso herdamos de ti, pai!