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A minha praia, sem comboio

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Não me lembro da minha praia sem esse ícone de boas-vindas. Uma carruagem de comboio, das antigas, sem que eu saiba precisar pormenores da instalação, mas lá estava ela, adaptada para bar e restaurante. O que é certo é que haviam muitas teorias em torno da vinda daquele vagon para ali. Imagino outras tantas sobre a sua retirada. Para mim, o que importa é que deu segundo nome à praia, a sua identidade. E se aquela era a praia da “Neves” deixou de o ser. O comboio estava lá. Os fins de tarde eram ali. Lembro-me bem do dia em que entrei a primeira vez na parte inferior do bar, de lajes lisas e tudo aquilo me parecer absolutamente incrível, moderno e acolhedor. O mesmo pensara quando espreitei à socapa o restaurante, porque nunca lá comi, embora fosse para mim glamorosa aquela ideia de jantar ou almoçar dentro de um comboio sem nunca ter andado em nenhum, aquela data. Os regressos dos dias longos de praia eram ali mesmo, na esplanada, onde alguém sempre pagava uma saca de cheet...

Todas as vezes que casei

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Foi com o Cohen. Olhar pousado no chão, sob a aba do chapéu, lá estava ele com o Hallelujah, emprestando à cerimónia essa imagem bela de alguém atado a uma cadeira de cozinha. Não levei nunca um bouquet de cactos, nem nunca servi chá e laranjas mas poderia dançar até ao fim do amor, sempre! O amor não tem fim e os homens que escrevem sobre ele também não.

O dia de hoje naquele outro dia

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Eu nunca gostei do dia de todos os santos até àquele dia. Do dia de todos os santos, dos fiéis defuntos, dos finados, de tudo o que se cria à volta de uma tristeza que até faz do Outono mais triste do que na realidade ele é. Desde criança que este era o dia em que via mais pessoas na freguesia do que em todos os outros dias do ano. Vinham de todos os sítios onde viviam as suas vidas para visitar aqueles que moram sob as paredes altas do cemitério e depositavam flores, muitas flores, as mais caras, as mais vistosas, as mais bonitas, numa procissão de vaidade que desde sempre me enervou. Não me lembro deste dia sem ser chuvoso, triste, com aquele cheiro dos pavios das velas de papel prata onde fixava o olhar enquanto as rezas se repetiam sem valor nenhum. Era o estar presente sem estar, na verdade. Mas no dia em que, por questões de trabalho, recebo convite para uma festa de celebração dos mortos na embaixada do México, em Lisboa, abriu-se um novo mundo e eu pensei como poderia ter v...

Podem passar muitos anos

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Não sei ao certo quantos anos passaram desde a última vez que fui às Feiras Novas, em Ponte de Lima. Podiam ter passado 20 ou 30 anos. A sensação seria a mesma. A de sentir que uma Vila não abraça todos aqueles quanto gostariam de lhe sentir a pulsação nas rusgas de concertina, no cortejo etnográfico com miúdos e graúdos, nas tigelas de vinho verde tinto pingão, nos petiscos dos tascos que podem ser servir o presunto com as mesmas mãos que se recebe o dinheiro, no canto esganiçado das minhotas em roda dos homens de bigode farto, em cantorias malandras que só cessam quando estoira o fogo no rio, a rebentar de esperança na promessa do ano que virá. Na "rampinha" que estende a noite até ao sol do novo dia, na ponte romana engalanada de luz e naquele magote de gente que se empurra ruas fora. Podem passar muitos mais anos sem que eu saiba a que santo ou santa é a romaria mas haverá sempre o Minho a brotar dos corações dos que por lá passam. Incluído o meu. ...

Caniçada parte II

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Vi-te num dia de Inverno, desde a pousada de S. Bento, escondida num manto de nevoeiro e chuva morrinhenta. Era um domingo de inverno e eu desejei que fosse verão para te voltar a ver e saber de que cores pintarias este coração do Minho. Não chega uma vista só ou um retrato para abarcar toda a beleza do verde da serra e da albufeira onde o Rio Cávado parece querer prolongar a sua passagem. Não chegam três dias ou uma semana para lá ir porque é um lugar que vai ser cobrar um regresso.

Nos regressos

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Acontece quando volto aos sítios depois de muito tempo. Aquela ansiedade de ver e rever tudo, como se não fosse acordar amanhã. Acontece nos sítios onde vivi, onde conheço mais sobre os lugares. Foi assim hoje. Sintra, Galamares, Colares, Mucifal, Praia Grande, Praia das Maças. A Várzea. Toda aquela rendição à Serra, com o Castelo mais visível do que nunca. E ia no IC19 a pensar que parecem que existem mais prédios, mais casas, a Serra está mais despida mas não há sensação que valha aquela que sinto quando desço até Colares, para ir até à Praia Grande ou Praia das Maças. Já o fiz de carro, bicicleta e até a pé. E em nenhum outro sítio tenho essa sensação de que estou num lugar saído de um livro, com a certeza que aquele é um lugar que desemboca na praia. Não sei se é do verde com as cúpulas dos palacetes, do pinhal com as casas de veraneio, do pequeno eléctrico. Mas há lugares que pedem sempre mais regressos.

Sem imagens, sem palavras

Juro por todos os dias da minha vida que sempre me queixar do que vai sucedendo de menos bom nos meus dias vou pensar em todos os "meninos de Aleppo". Nós não temos problemas temos é uma humanidade reles!