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2017

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Chegarás ébrio de brilho e de cor. Mesmo num mundo às avessas onde morrem crianças, joga-se ao poder com bombas e ainda não há cura para o cancro. Chegarás e brindaremos.  Com a champanhe ou o champanhe, nunca sei, mas que é sempre de uma amargura e por isso aproveito para cerrar os olhos e desejar muito. Com tanta fé como se de uma torcida brasileira se tratasse. Chegarás com os mesmos dias, com os problemas do costume , as mesmas dúvidas e abismos. E também as mesmas esperanças quando ouvimos uma música que gostamos ou lemos algo e pensamos sobre o que nos faz sonhar. Ou quando alguém nos faz sorrir por dentro e acreditar que há um resto de bondade. Chegarás com esse peso comparativo de todos os anos que já vivemos, a evocar se morreram mais ou menos artistas que gostamos, se fomos ou não campeões no futebol e no desporto em geral, se houve ogres que ganharam na política e outros que para lá caminham, se aconteceram mais desastres naturais ou se os nossos adoeceram,...

As incoerências do Natal

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Estavam no presépio também. A árvore de Natal era uma extensão do presépio, esse sim, importante porque haveria de ser diferente todos os anos em tamanho e na disposição das figuras. Os pequenos bonecos de barro, uns já partidos e colados dezenas de vezes, seriam dispostos sempre com uma história de fundo. Sim, havia uma espécie de guião na minha cabeça para aquilo que reproduzia sobre o musgo verde e cheio de bichos que trazíamos dos montes. Era sempre tudo dificultado porque lá estavam os camelos que carregam os reis magos e esses animais sempre os imaginei em desertos áridos. E o meu cenário era o repasto verde e viçoso onde, pelo menos, uma vintena de ovelhas pastavam. E moinhos de vento e casas de aldeia não combinavam com uma cabana de palhinhas que seria, supostamente, abrigo improvisado daquela família que, por via das circunstâncias, adoptara um burro e uma vaca. E o meu boneco do burro mais se parece com um toiro de ganadaria Ribatejana e já não havia históri...

Sabores de infância

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Isto não é publicidade!  É reviver os tempos em que 4 "pauzinhos" deste chocolate faziam as delícias de miúdos e graúdos. A embalagem tinha o mesmo barco em design mas era azul e branca e era a gulodice nas merendas dos trabalhos no campo, juntamente com os biscoitos argola. Viria o dia em que visitaria as instalações da fábrica e parece que sinto o imenso cheiro a cacau. Podia dar-se o caso de ter enjoado de chocolate, mas não aconteceu. Aqui há dias a minha mãe tinha esta embalagem em casa. Renovaram-se as memórias mas o sabor, infelizmente não é o mesmo. Ou talvez seja, mas nós é que o apreciamos de forma diferente.

A minha praia, sem comboio

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Não me lembro da minha praia sem esse ícone de boas-vindas. Uma carruagem de comboio, das antigas, sem que eu saiba precisar pormenores da instalação, mas lá estava ela, adaptada para bar e restaurante. O que é certo é que haviam muitas teorias em torno da vinda daquele vagon para ali. Imagino outras tantas sobre a sua retirada. Para mim, o que importa é que deu segundo nome à praia, a sua identidade. E se aquela era a praia da “Neves” deixou de o ser. O comboio estava lá. Os fins de tarde eram ali. Lembro-me bem do dia em que entrei a primeira vez na parte inferior do bar, de lajes lisas e tudo aquilo me parecer absolutamente incrível, moderno e acolhedor. O mesmo pensara quando espreitei à socapa o restaurante, porque nunca lá comi, embora fosse para mim glamorosa aquela ideia de jantar ou almoçar dentro de um comboio sem nunca ter andado em nenhum, aquela data. Os regressos dos dias longos de praia eram ali mesmo, na esplanada, onde alguém sempre pagava uma saca de cheet...

Todas as vezes que casei

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Foi com o Cohen. Olhar pousado no chão, sob a aba do chapéu, lá estava ele com o Hallelujah, emprestando à cerimónia essa imagem bela de alguém atado a uma cadeira de cozinha. Não levei nunca um bouquet de cactos, nem nunca servi chá e laranjas mas poderia dançar até ao fim do amor, sempre! O amor não tem fim e os homens que escrevem sobre ele também não.

O dia de hoje naquele outro dia

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Eu nunca gostei do dia de todos os santos até àquele dia. Do dia de todos os santos, dos fiéis defuntos, dos finados, de tudo o que se cria à volta de uma tristeza que até faz do Outono mais triste do que na realidade ele é. Desde criança que este era o dia em que via mais pessoas na freguesia do que em todos os outros dias do ano. Vinham de todos os sítios onde viviam as suas vidas para visitar aqueles que moram sob as paredes altas do cemitério e depositavam flores, muitas flores, as mais caras, as mais vistosas, as mais bonitas, numa procissão de vaidade que desde sempre me enervou. Não me lembro deste dia sem ser chuvoso, triste, com aquele cheiro dos pavios das velas de papel prata onde fixava o olhar enquanto as rezas se repetiam sem valor nenhum. Era o estar presente sem estar, na verdade. Mas no dia em que, por questões de trabalho, recebo convite para uma festa de celebração dos mortos na embaixada do México, em Lisboa, abriu-se um novo mundo e eu pensei como poderia ter v...

Podem passar muitos anos

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Não sei ao certo quantos anos passaram desde a última vez que fui às Feiras Novas, em Ponte de Lima. Podiam ter passado 20 ou 30 anos. A sensação seria a mesma. A de sentir que uma Vila não abraça todos aqueles quanto gostariam de lhe sentir a pulsação nas rusgas de concertina, no cortejo etnográfico com miúdos e graúdos, nas tigelas de vinho verde tinto pingão, nos petiscos dos tascos que podem ser servir o presunto com as mesmas mãos que se recebe o dinheiro, no canto esganiçado das minhotas em roda dos homens de bigode farto, em cantorias malandras que só cessam quando estoira o fogo no rio, a rebentar de esperança na promessa do ano que virá. Na "rampinha" que estende a noite até ao sol do novo dia, na ponte romana engalanada de luz e naquele magote de gente que se empurra ruas fora. Podem passar muitos mais anos sem que eu saiba a que santo ou santa é a romaria mas haverá sempre o Minho a brotar dos corações dos que por lá passam. Incluído o meu. ...