Mensagens

Nem sabe, nem cheira

E foi assim que conheci mais um embuste das "indústrias variadas" - a geleia de marmelo. Andava eu rua abaixo e rua acima nas idas ao parque e reparei no marmeleiro da praceta Rainha D.Leonor. Verde, bem tratado e com fruto. E ainda me passou pela cabeça que pudesse vir a fazer algo com alguns dos marmelos  mas, regressei de férias e a árvore está despida. Não sei quem os colheu mas tomara que tenha sido aquela senhora de idade que às vezes está junto ao pequeno quiosque. A D. Clotilde que, não o sendo, assim mo parece. Tem ar de saber receitas  boas, com sabor, e não retirar açúcar em nada. Imaginei-a logo, com o tacho ao lume, procurando as tacinhas em que iria dispor a marmelada e a geleia, para depois cobrir com papel vegetal e colocar no parapeito da janela. Vejo-lhe a cor, a textura e o sabor e foi nessa ilusão que levei o frasco do supermercado para chegar a casa e confirmar que aquilo que comprei nem sabe, nem cheira a geleia de marmelo.

Ir

Imagem
Creio que levava o dorsal número 3596. Mas não estou certa. Ia em passo de marcha, junto à baía dos golfinhos e na sua retaguarda iam duas ambulâncias, um autocarro fretado pela organização e um carro de apoio. Seriam os ditos "carros vassoura" e que, por certo, lhe fizeram pressão a desistir. Mas ela lá ia. Indiferente a tudo o que fosse exterior às dores físicas que levava. Como ela, passaram tantos outros. Novos, velhos, mais em forma ou menos em forma. Equipados a rigor ou com uma velha tshirt oferecida em alguma prova.  A corrida é isso mesmo. Uma amálgama de gente, de vontades e de objectivos. E se hoje desistimos, amanhã vamos novamente. Nem que seja para viver esse desconforto de desistir. Mas ir. [ A subir para o alto da Boa Viagem, 20 de Outubro de 2019 ]

Sessão errada

O som do violoncelo e a dança dele em frente ao espelho.  O único momento em que acreditei que o cinema poderia fazer algo por uma sala imberbe, teenager, ridícula, impregnada de estereótipos, que nunca saberá o valor do silêncio, do ódio, do amor, da violência e da loucura porque vivem nesse mundo do literal, do imediato, da qual nenhum tipo de arte é capaz de resgatar.

A F.

A F. tem 55 anos é uma de nós as três que subirá à montanha mas com uma particularidade: a vida da F. é, ela própria, uma montanha. De altos e baixos e com muitos picos, como essa montanha que se ergue diante de nós e que não é russa mas (e ainda bem) Asturiana. A F. propõe-se completar a rota mesmo sabendo que as suas condições impõem algum (demasiado) risco. Um cancro da mama vencido há cinco anos e agora o diagnóstico no fígado. Mas a F. não resvala no medo, na clausura que uma doença destas lhe poderia impôr. Ela vai, ri, dança, vive até que a dor física nos dias menos bons a fazem moderar essa força vinda não sabemos de onde. Como a força da água que desce a fenda da montanha. Não sabemos de onde vem mas, aos poucos, aproximam-nos da sua nascente.  A F. não gosta das subidas e, ao pé dela, não direi que levo um dos pés com feridas abertas. Porque o que a F. leva é maior que tudo o que podemos carregar. Em dor e em alegria. E isso foi a melhor surpresa que a ida à mon...

Não há tempo

Imagem
O seu corpo branquelas a cair  a direito nas funduras das águas sujas do Douro. Vi-o, estava eu a meio da ponte e percebi que era um nadador experiente pelo tempo que levou até à margem. Reparei que fazia parte de uma filmagem e segui distraída pelo frenesim de turistas. Foi já na varanda dos restaurantes, onde as asiáticas posam a pele branca e luzidia em sucessivos flashes, que o viria a encontrar. Roupas a pingar, cabelo grisalho de uma meia idade avançada, tatuagens no antebraço, aquele sotaque cerrado a afirmar que há trinta anos não saltava. Por certo, não há tempo que mude um menino do rio.  [ Ponte D. Luís, 08 de Outubro de 2019]  

A resposta

Tudo o que possa descrever é imperfeito. Porque não lhe fará justiça à dimensão, às cores das rochas e do verde dos prados que se erguem irregularmente, à beleza das árvores que se equilibram no cimo da montanha que esperam os próximos nevões. O nevoeiro que poisa nos cumes daquela cordilheira irregular. O sol que, ora vem, ora vai.  Eles descem, de varas altas na mão, botas de montanha e fazem desse ciclo de muitos quilómetros a sua vida. São três homens. Não muito novos nem muito velhos. Dependem dos animais que guardam e é a vida daquelas vacas que defendem. O trajecto da rota é estreito e por isso nos apressam na passagem para que elas não se aflijam e não se precipitem declive abaixo. O tilintar dos chocalhos é agora o nosso metrómeno para que elas não esperem, não se desviem do seu regresso a Cabrales.  E entre esse murmúrio  do Cares que desce, fenda abaixo, em azul glaciar, o ruído dos nosso passos nas pedras soltas da Ruta, as cabras que se mostram à pass...

O nome, talvez

Vi-o ao fundo no pequeno souto dos castanheiros e desde logo me pareceu uma figura interessante. Vestia calças de sarja azul vivo e uma camisa florida, pouco comum. No conjunto parecia que aquele homem rodava uma cena à Almodóvar. Vestia umas luvas e descaroçava as castanhas dos ouriços com uma pinça metálica, juntava-as para uma pá também ela de metal e depois deitava os frutos num balde. Disse-lhe bom dia e parei perguntando se tinha muitas castanhas. Parou e sorriu. E ficámos à conversa. De onde vinha, porque fazia o caminho sozinha, quantas vezes ele visitara Portugal e de apenas conhecer a cidade do Porto. Não lhe perguntei o nome, mas num filme isso seria compensado por aquela cena única, em plano quase lento, aquele homem de sorriso largo , roupas vistosas, um adeus numa fotografia perfeita.  Talvez fosse Joaquin.