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Fartura(s)

 Penso que a terra se chamava Caixeiros.  Eu olhava de soslaio o espelho interior do carro, a ver se o nariz ia tão vermelho quanto os braços. Ia nesse exercício de evitar franzir o sobrolho porque essa ruga marcada é, também ela, o novo normal.  Ia, de certo modo, a pensar no dia. Nas arribas douradas e na manhã fresca que acabou por abrir um sol perigoso. A pensar na história que estaria por detrás daquelas rosas postas na arriba, com umas pequenas pedras por cima. Homenagem ou declarações de amor? Ia nessa retrospectiva triste, cada vez mais vazia, do tempo que preciso de viver à minha maneira. E numa condução nada atenta, na verdade. Foi quando vi aquela roulloute de farturas naquela espécie de descampado. Lá dentro uma rapariga, de máscara preta no rosto, aguardava os clientes que não tenho ideia de onde pudessem aparecer. Não me lembro se eram as "Farturas da Celeste", ou " Farturas do Oeste", o nome pouco importa. Naquele calor de Agosto, ali estava ela, mais...

Nas horas

Às vezes, nessas horas em que há um braço de ferro entre dois cansaços, ou quando o calor não diminui pela pequena fiestra da janela, ou quando já fiz todo o scroll de todo o lixo, todas as novidades, as vaidades, as purezas, ou até quando já tentei ler e reler as últimas páginas dos três livros que alternam a ordem debaixo do abajur, Às vezes, como agora, O corpo talvez desista para o insconsciente fazer a sua teia de contactos. Às vezes, como ontem, como agora, Eu descubro que essa inquietação apurada é o pressentimento.

[ carta III ]

Manuel deixou que os anos corressem no Rio, foi ficando, sem cartas remetidas da sua terra mas com amizades cariocas que lhe valeram nas horas mais cinzentas. Dos trezentos e cinquenta mil reis mensais  haveria de ter o que os campos não lhe deram até então. O que fizera nos primeiros meses depois da sua chegada são suposições divididas entre afazeres de tarefeiros para os portugueses já estabelecidos e as burocracias de legalização de um recém-chegado. Mas depois entregou-se ao trabalho para a firma de exportadores e só de lá saiu quando sentiu que a honra de um homem vale mais que o soldo pago. Durante sete anos servira aquela casa, ajudara a formar os moleques que vinham pedir trabalho e desistiam na semana seguinte, conheceu, cheirou e movimentou novas frutas e colheitas e foi aprimorando o jeito aos números, embora não dispensasse o velho lápis e o papel meio amarrotado no bolso da farda de trabalho. Um homem leal e correcto que não aguentou essa paraneia do dono da casa das ...

[ carta II ]

Vicente está num boteco, junto ao Largo do Guimarães, em Santa Teresa, do outro lado do mundo, de máquina fotográfica vintage a tiracolo, enquanto espera pelo grupo de turistas com quem vai descer, até ao coração do Rio. Conhecera Sofia numa dessas tours quando ela viajara em medos pela primeira e, até ver única vez, para a sua cidade.  Os seus dias são como a incerteza das balas na favela. Ora sobe ao Morro dos Dois Irmãos, em rota de pobreza desvendada, ora ajuda o pai nos mil ofícios que as solicitações obrigam. Aquela colina de caixotes em tijolo bruto, que ao anoitecer é vista da baía, é um ponto de luzes, é desordem sem progresso. Não cabe, sequer, nas políticas de aberração firmadas de geração em geração. Mas é de lá o coração do Vicente, daquela luz de fim de tarde que ele capta no cimo do Vidigal e faz chegar ao mundo, com adenda de hastags. - Tinhas-me dito o ano de 1935, correcto?  - Sim. E aparentemente coincide com as pesquisas que eu tinha feito na internet...

[ carta I ]

Estava sozinha numa das mesas do café com longas cortinas de veludo grená. Pediu um chá e ainda hesitou ao apontar para o bolo de chocolate e noz, da farta boleira de imitação de cristal. Sofia carrega em olheiras o vazio e a ansiedade das últimas semanas. Não sabe como vai pagar a renda do pequeno anexo da ladeira dos jacarandás, nem todas as coisas que passaram de necessárias a supérfluas. Poderia existir, apenas.  Ver o mundo através de uma vitrina sem lembretes para as contas mensais, sem as viagens que os amigos programam e com quem nunca pode ir, sem os livros que ficam na lista de um futuro que não chega, os concertos que enchem salas onde nunca vai procurar um lugar de coxia. Aquele sentido de fracasso que nunca faz por ser breve.  Mas Sofia sabia disto quando, naquela coragem disfarçada de medo, se despediu do trabalho que tivera nos últimos quinze anos. Nesse dia, foi ela mesmo liberdade, disseram uns, loucura comentaram outros. Agora estava ali, de caderno de notas ...

Ao menos elas

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Uns meses apenas e os carreiros estreitam-se, vencem o mato e a carrasca florida, escondem-se as rochas e já hesito se é por um lado ou pelo outro. E paro para ver o mesmo mar que terão visto os Gróvios, também eles já uma mistura de Celtas e Iberos, os Suevos, os Sarracenos e muitos outros povos invasores que fizeram a sua passagem por aqui. E se não foi assim, que tenha sido como cada homem que estudou a história tenha interpretado os achados, e os escritos.  Por agora, recuar-se-á décadas em código civil e de direitos humanos, se alguma vez os avançamos, num século que tem todos os meios à disposição para fazer melhor, mas acabará apenas a sangrar nas ruas. E no final, ficam elas - as rochas carregadinhas de musgo.

Memórias do Sr. Joaquim

Passaram doze ou treze anos. Eu vivia numa casa húmida, não tinha vizinhos de prédio, com umas escadas que me faziam desistir de carregar qualquer coisa, onde nem o bonsai se habituara, acabando por despir todas as suas pequenas folhas, tendo sido já tarde demais para o salvar, quando dali decidi sair. Em Maio, por altura das peregrinações a Fátima, o senhorio abria o espaço inferior do prédio, que nunca terá cumprido as suas funções de espaço comercial, e recebia peregrinos. Pela proximidade da N1, em várias semanas muitos eram os que se deitavam em sacos-cama ou colchões improvisados e descansavam, ligavam às famílias, curavam as feridas, embora muitas delas nunca tenham parado de sangrar.  Por esses dias, e enquanto ajudava as pessoas a acomodarem-se, apareceu o Sr. Joaquim, mais de sessenta anos feitos, fanfarrão nas suas primeiras palavras, o corpo em mazelas visíveis e tudo o resto um misto de comédia e tragédia. Quando o ajudei a sentar-se e a tirar os ténis e ele fez-...