Mensagens

Memórias do Sr. Joaquim

Passaram doze ou treze anos. Eu vivia numa casa húmida, não tinha vizinhos de prédio, com umas escadas que me faziam desistir de carregar qualquer coisa, onde nem o bonsai se habituara, acabando por despir todas as suas pequenas folhas, tendo sido já tarde demais para o salvar, quando dali decidi sair. Em Maio, por altura das peregrinações a Fátima, o senhorio abria o espaço inferior do prédio, que nunca terá cumprido as suas funções de espaço comercial, e recebia peregrinos. Pela proximidade da N1, em várias semanas muitos eram os que se deitavam em sacos-cama ou colchões improvisados e descansavam, ligavam às famílias, curavam as feridas, embora muitas delas nunca tenham parado de sangrar.  Por esses dias, e enquanto ajudava as pessoas a acomodarem-se, apareceu o Sr. Joaquim, mais de sessenta anos feitos, fanfarrão nas suas primeiras palavras, o corpo em mazelas visíveis e tudo o resto um misto de comédia e tragédia. Quando o ajudei a sentar-se e a tirar os ténis e ele fez-...

Mr. Miyagi

Tantos poemas esta semana e nenhum sobre os gatos que acordam às seis da manhã ou sobre os homens com motorroçadoras que abrem os sábados em zoadas vespertinas. Oito e vinte, os céus de negro, nessas manhãs em que queremos café e bolos e não perdemos essas ideias mesmo quando as calças apertam em tudo. Desci à minha rua direita com a foto da Isabel na minha cabeça (um beijinho a ela). Não pelo traçado de km que ela fez, porque está longe a minha actual audácia, mas por essa liberdade de sair em direcção à Carvalha, descer o rio, chegar à foz, seguir pelo caminho dos cactos para depois cortar pelas dunas e parar a meio, para ver esse mar que nos rouba fôlegos e metros de terra. Sigo para o parque, onde ainda não há hordas de romeiros. Vejo os patos sem água nos lagos, desorientados que estão, cruzo-me com os que correm suados dessa missão que já deve ter começado às sete. Aquele senhor de jornal numa mão, máscara na outra, só não trouxe guarda-chuva. Devolvo o sorriso ...

janela #18

São as dezasseis e quarenta e sete. Assim, em palavras que os números ferem-me a vista. Eles correm com as trouxas às costas e cruzam o jardim dos prédios em frente. Não é a primeira vez que os vejo. Saem da obra da qual vejo os avanços há mais de um mês e lutam com os escassos minutos que têm, contra a pontualidade do autocarro que passa nesta rota. Pergunto-me para que ponta dos arredores ou da cidade irão. Quase nunca apanham o autocarro, porque quase nunca aquele sprint é suficiente. Mas nunca os vi em passo demorado ou vagar de cansaço de mais um dia de trabalho. Correm para chegar. E eu poiso os olhos no computador de novo. Porque a minha corrida é numa estafeta de burocracias, legalidades, cálculos, prazos e muita desorientação. E afinal, neste tempo que já vai longo, quantas corridas se perderam, quantos autocarros não se apanharam, quantas viagens de comboio ficaram por fazer, quantos voos se perderam, quantos abraços não se deram, quantos beijos se omitiram, quantas vi...

Crusoé, revisitado

Naquela manhã, dois dias depois da tempestade, Crusoé descera à orla da ilha, sozinho, para colher fruta das árvores. À medida que se ia embrenhando na vegetação percebia que os ventos tinham sido mais fortes do que os fizera. Os fetos derrubados, as grandes clareiras abertas à mercê do céu azul e sem réstea do negrume que foram as últimas horas.  Quantas tinham sido as tempestades ao longo desses últimos anos? Deteve-se com aquele fruto espinhoso e verde, de polpa doce, na mão, a pensar que em cada uma dessas noites que os céus rasgaram fogo se sentiu mais próximo de algo novo que estava por vir. Como uma renovação anunciada, sem que fosse certo que estivesse vivo no dia seguinte. Já não tinha medo dessa natureza enfurecida que roubava o silêncio daquela solidão que escolhera.  Absorto nos seus pensamentos não se apercebeu daquele restolhar, mais abaixo já onde a areia escalda e se acaba o verde. Assustou-se com aquele corpo moreno, esguio, meio nu. Crusoé aproximou-s...

janela #17

Planeei e preparei tudo de véspera. Fui ver se o carro pegava e se os pneus tinham pressão, descarreguei o mapa para poder aceder em modo offline, preparei a mochila com água, fruta e alguma comida. A pequena navalha para "afagar" nos momentos em que o silêncio invade a cabeça de medos. No livrinho onde religiosamente consulto os códigos PR, aquela subida à serra pelo vale já depois das duas aldeias, termina com uma vista sobre uma lagoa natural, reservatório das águas da chuva.  Pensei demoradamente sobre quais as alternativas de estradas a seguir para lá chegar, aquilo que diria caso fosse interceptada e sobre esse momento em que ficaria lá no topo, a repousar o fervilhar do corpo. Aspirei a casa, pus comida e água à Billy, o suficiente para alguns dias se algo corresse mal. Tudo como se com a ordem das coisas exteriores omitíssemos a desordem daquelas que temos cá dentro. E hoje, acordei bem cedo, vesti o impermeável, as botas de trekking e enquanto...

janela #16

Depois de fechar a casinha do lixo saio na direcção dos prédios de habitação social à procura de saber qual será a música que aquela outra janela faz soar. Entre o tradicional reggaeton  e a música popular portuguesa, ainda não fui capaz de perceber em qual das janelas actua o DJ. Sempre que por ali passo imagino um tiro que me deixará deitada no passeio, junto ao prédio de construção mais recente. Porque é que as balas são quase sempre perdidas? É uma imagem muito aproximada ao sonho que tive em tempos, com o disparo feito do comboio que atravessa o passeio marítimo de Algés. Desde esse sonho e sempre que ia correr para aquela zona e o comboio passava, eu esperava por essa bala. Viro à direita, vejo que há já uma espécie de parque de estacionamento de carrinhos do supermercado, e reparo que todas as autocaravanas da empresa que opera num dos blocos do meu prédio e que tinha os veículos ali estacionados desapareceram. Segui pelo passeio, agora com um rol de dúvidas acerca daqu...

Lisboa

No bairro de Alfama, os elétricos amarelos cantavam nas subidas. Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos. Eles acenavam através das grades. Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados! "Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho como um afectado "aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada e em cima, a uma janela, um homem, com um binóculo à frente dos olhos, espreitando para além do mar. A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes. As moscas liam cartas microscópicas. Seis anos depois, perguntei a uma dama de Lisboa: Isto é real, ou fui eu que sonhei? [ poema escrito em 1966 por Tomas Tranströmer, nascido a 15 de Abril de 1931, em Estocolmo. Tradução de Luís Costa ]