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Rest in power

Ando a ler " Essa gente" do Chico Buarque e ele haveria de ficar feliz desta partilha de leitura e daqueles que seguiram Duarte cheio de feridas, num Rio de Janeiro também ele cheio de feridas. Ainda não acabei de o ler. Acontece que, neste início de viagem, voltei ao Rio de Abril de 2016, naquela primeira impressão da janela do avião a pensar que morreria engolida por aquela massa urbana. Viria a sentir uma sensação e leveza diferentes quando fomos do Arpoador ao Leblon, mesmo que os moleques rondassem, mesmo que o Vidigal continuasse ali, a descer na paisagem em beleza e pobreza. Por estes dias, todos estes "frames" passaram, incluindo aquele primeiro "baque" com o som dos disparos na Rocinha, sentidos lá do alto, naquela rocha onde sorrimos para a foto do Felipe. Ou sentir que podia voar do Morro até à Gávea, aquela Gávea das cartas do meu avô, ou até às Ilhas Cagarras. E então lembrei-me que já não via nada acerca do Felipe nas "redes" (esse ...

[ dores ]

  Caem como folhas secas de Outono, como perfeitos despojos dos males que protegem. Vejo-as em toda a parte, cor de céu. E será que os pombos alinhados nos fios olham para elas também?  Tento ignorar a dor no meu ombro,  tento sentir-me leve como se fosse descalça na pista tartan. Toca "silent night" e isso tira-me ritmo, mas ao Silveira não. Quem é o Silveira?  Não sei, mas acaba de passar com um dorsal ao peito, com o seu nome.  Aquela luz no rio e aposto que é isso que aquele homem sozinho está a admirar, sentado naquele banco. Que presunção esta, de adivinhar. E as dores, e o peso da noite mal dormida.  Dizem que o deus que morreu esta semana também tinha insónias.  Não sei se lhe doíam as insónias, mas a mim doem mais do que se eu fosse descalça nesta pista tartan.

[ Mulheres ]

"Mulheres ácidas" era o nome da peça. Tão únicas e tão múltiplas,  imaginei eu.  Ácidas de sagazes, irónicas, mordazes, às vezes seguras de si, olhar riscado de negro, mãos nas ancas, um salto alto por partir.  Mulheres ácidas, com medo do que há por vir. De pés descalços,  voz trémula, olhos inchados de chorar e mau dormir.  Mulheres ácidas, dóceis, de palavras meigas ao ouvido, até que dois perdem os sentidos. Mulheres ácidas, com nódoas negras, e medo e rebelião.   Mulheres ácidas, bonitas, feias, gordas ou magras.  Peito firme ou assim como o PR quando se vai vacinar e aparece na televisão... Mulheres seguras, inseguras, tímidas, descontráidas, formais ou demasiadamente desprendidas.  Mulheres poema, canção, mulheres que saem de livros, mulheres porno, mulheres de garra ou aquelas que não sabem dizer não. Mulheres ácidas, com humor, chatas, tristes, melancólicas, aborrecidas ou muito sofridas. Mulheres ácidas, a descer a avenida, gritinh...

Ougadamente

 Saímos da estrada principal e metemos pelo caminho ladeado por amieiros que terminava numa rua estreita com poucas casas. Numa delas, desfazia-se um ciclo, a arrancar videiras à terra e, mesmo que isso possa representar mudança e renovação, para mim, sempre que se arranca uma vinha é sinal de tristeza, de fim de uma era.  E enquanto subíamos na rampa de madeira de acesso ao restaurante passou o Gary Cooper de bicicleta, sem chapéu de western, mas com aquele ar cinematográfico que parecia abrir o quadro que estava por vir. Trazia duas romãs na mão e entregou-as a alguém que terá saído pelas traseiras do espaço. Não sabemos se por zelo, convenieência ou pedido especial. E depois, aguardámos na porta, filtrando aquele certo desalinho, as caixas de vinho empilhadas, as anunciadas noites de cultura ainda afixadas nos papéis, a ementa escrita a giz, as floreiras decadentes, a esplanada de onde se viam os chorões pendentes para as águas paradas da lagoa.  E aguardámos, já numa ...

Quino

Não tenho memória de ler os seus livros mas tenho presente a genialidade e intemporalidade da figura que criou - a Mafalda.  E do J. chegar com a sua camisa aos quadrados vermelhos e negros e aquele sorriso de miúdo que acaba de receber uma prenda há muito esperada. O livro era espesso, capa rija, uma versão completa de algumas obras, escrito em Italiano, um objecto muito bonito, com aquele cheiro acre dos livros novos. J. folheou, ter-me-á explicado algumas passagens e foi ali que percebi que o menino que ele sempre fora, estava ali. A doutorar medicina, amante do Ski, de rodear-se de mulheres bonitas e ainda longe de saber que nos veríamos uma última vez, em frente à praceta da estação de Campanhã. Para nunca mais saber se continuara a coleccionar o Quino, em que país vive. Passaram onze anos sobre o nosso último email. Não estou certa que ainda tenha o mesmo endereço, mas hoje escrevi ao J.  Para lhe dizer que o Quino viverá para sempre.

Fartura(s)

 Penso que a terra se chamava Caixeiros.  Eu olhava de soslaio o espelho interior do carro, a ver se o nariz ia tão vermelho quanto os braços. Ia nesse exercício de evitar franzir o sobrolho porque essa ruga marcada é, também ela, o novo normal.  Ia, de certo modo, a pensar no dia. Nas arribas douradas e na manhã fresca que acabou por abrir um sol perigoso. A pensar na história que estaria por detrás daquelas rosas postas na arriba, com umas pequenas pedras por cima. Homenagem ou declarações de amor? Ia nessa retrospectiva triste, cada vez mais vazia, do tempo que preciso de viver à minha maneira. E numa condução nada atenta, na verdade. Foi quando vi aquela roulloute de farturas naquela espécie de descampado. Lá dentro uma rapariga, de máscara preta no rosto, aguardava os clientes que não tenho ideia de onde pudessem aparecer. Não me lembro se eram as "Farturas da Celeste", ou " Farturas do Oeste", o nome pouco importa. Naquele calor de Agosto, ali estava ela, mais...

Nas horas

Às vezes, nessas horas em que há um braço de ferro entre dois cansaços, ou quando o calor não diminui pela pequena fiestra da janela, ou quando já fiz todo o scroll de todo o lixo, todas as novidades, as vaidades, as purezas, ou até quando já tentei ler e reler as últimas páginas dos três livros que alternam a ordem debaixo do abajur, Às vezes, como agora, O corpo talvez desista para o insconsciente fazer a sua teia de contactos. Às vezes, como ontem, como agora, Eu descubro que essa inquietação apurada é o pressentimento.