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Assim ou assado?

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Depois da conversa com o homem da empresa da internet eu percorri toda a rua Glogowska com aquele sentimento de vazio e de escoamento do ser. Como se não fosse de parte nenhuma, nem de mim própria. Passaram pela minha memória todos os lugares onde vivi, trabalhei ou estudei e todas as pessoas que, de um modo ou de outro, marcaram este meu puzzle de vida. Eu tento encarar as mudanças sempre de forma positiva e não tenho dúvidas que a capacidade de adaptação depende sempre mais de nós próprios que dos outros, ou mesmo dos sítios. Não tenho medo de arriscar, de abdicar de condições para conseguir outras mas quando nos desvinculamos de um lugar é sempre doloroso. Pela enorme carga emotiva a que isso nos expõe. Porque não raras as vezes, ponderamos com a razão e a emoção do momento, decisões que temos de tomar agora e lembrámos outras que foram tomadas antes como se, a esta distância, pudessemos imaginar o que teria acontecido se tivesse sido "assim" ou "assado". ...

O pacto

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Eu e a L. fizemos um pacto. Para sonhar mais do que o habitual quando não se tem plano nenhum. Mas não é sobre essa realização que penso. É sobre a L. e a sua coragem depois de, decorrido este tempo, saber que ela nunca morreu dentro de si. Os seus sonhos, aspirações e vontades nunca se despegaram daquilo que a define. A L. é tao girassol quanto o que lhe está tatuado. É tão mais guerreira do que ela pensa que é. Mas escondeu grande parte de si durante o tempo que pensou, porventura, alhear-se disso. Mas nunca desistiu. E cresceu, aprendeu, ensinou, deixou a sua marca e recebeu também muito do que é. E a L. está prestes a iniciar um caminho diferente para resgatar aquilo que sempre soube que queria para si: uma vida menos amorfa! E eu penso nessa determinação, sem nunca perder da memória o pacto que fiz com ela. Talvez signifique mudança!!

A internet em Marte

A primeira vez que me propuseram fazer parte de uma lista independente eu tinha falhado o primeiro recenseamento. Assim como todas as angariações massivas de jotas à porta do liceu. A parte do recenseamento foi uma irresponsabilidade, eu sei, mas da política sempre quis distância. Até porque deus nos livre de ter de explicar a um país porque nos deu a gana de tirar a roupa para uma revista!!! Ou, se calhar, esse é o topo da carreira “a fazer política”. No entanto, sempre tentei não falhar eleições. Até hoje.   A humanidade descobriu vestígios de água salgada em Marte mas disponibilizar via internet a possibibilidade das pessoas residentes no estrangeiro votarem é coisa que só deve acontecer lá para 2050. Eu tenho um número de eleitor e isso parece-me suficiente para chegar a um site, fazer a minha opção, registar o país de residência para que sirva para todas as estatísticas e me autentique como cidadã portuguesa.   Eu pergunto-me se eles conhecem aqueles “monkey...

Os mergulhões

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Ela vai ali concentrada na leitura. E eu pergunto-me como podem ser tão bonitas estas Polacas e sempre tão bem maquilhadas! O livro de capa rígida e vermelha tem uma etiqueta na contracapa com um código e, por isso, tudo indica que seja um livro de biblioteca. Faz muito tempo que não requisito livros em bibliotecas. Às vezes distraía-me quando encontrava um rabisco ou uma anotação que alguém mais desinteressado fizera. Eu rabiscos nunca fiz mas, talvez uma migalha ou outra se tenha perdido entre as folhas. Mas, em nenhuma biblioteca hei-de sentir essa mística da biblioteca itinerante que estacionava na "Rua da Estrada" à espera dos poucos que, periodicamente, íamos devolver e requisitar livros. Foram aventuras o que mais li e penso que os livros dos Cinco, da Enid Blyton. E a única coisa que me recordo desses livros e até hoje ainda não percebi porquê é o episódio dos mergulhões. Eu não sabia o que eram mergulhões mas para mim essa história era nas Berlengas e os bichos...

O cesto da fruta

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São 21:30 e o meu dia foi abrir e fechar um castelo. E agora, já rendida ao hotel, podia escrever sobre a beleza desse gigante em tijolo que arrasa os fins de tarde em tons bucólicos, enquanto bandos de aves repousam nas águas do Nogat. Mas não. Apetece-me falar sobre o cesto da fruta que ia naquela bicicleta, no parque verde, bem perto da marina. O passeio até lá divide-se entre o dourado do pôr do sol que trespassa as árvores e as primeiras folhas caídas, de tons castanhos. A meia dúzia de barcos ancorados evoca nostalgia mas, daquele pontão, o horizonte é esperança, é paz, é a serenidade semelhante à do pescador que no seu vagar vai lançando a linha enquanto o dia acaba ali mesmo. Entretanto já fui espreitar a tenda de onde se projecta a música do que suponho ser um casamento. E depois, eles passam. Bicicletas de passeio, ela fala efusivamente e ele sorri para ela. Na bicicleta dele, um cesto de vime carregado de maçãs e às costas umas raquetes de ténis. Talvez vá ali uma ta...

Jantar

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A estação é um edifício lindo e cuidado nos seus tons de tijolo castanho. No caminho até ao hotel passei por duas bombas de gasolina e um MacDonalds. Fui tentando adivinhar onde se ergue o castelo que me trouxe até aqui e por onde serão as margens do rio Nogat. Mas de ambos nem sinal e a prioridade foi encontrar o hotel onde devo ser a única hóspede, mais o bisonte que ressona no quarto de cima. É preciso pontaria e capacidade de abstração, que isto é coisa para me tirar o sono! Foi assim, a chegada a Malbork depois da viagem no comboio que se atrasou,  com paragem em Tczew e mais um regional até aqui. No caminho pensei no jantar. Não no que iria comer mas no que me apareceu no mapa enquanto ia controlando as distâncias e o tempo. Jantar à beira mar não estaria nada mal mas sobrou a pizzaria da esquina enquanto penso no que poderei fazer durante dois dias numa terra que é um castelo!

À noite...

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Todos os homens polacos são pardos! Perdão, parvos! Ou bestas! Ou então estarei a exagerar porque segundo o meu colega de trabalho aquilo que aconteceu esta quarta-feira à noite foi, afinal, uma palmada de motivação. Um dos meus lugares favoritos na cidade é o lago ao pé da minha casa. À sua volta, vi as cores de Outono quando aqui chequei. Observei vezes sem conta as aves pousadas em bandos, num gralhar que interrompe o silêncio de qualquer fim de tarde. Vi o Inverno chegar e o gelar das águas empurrando as aves para o centro até que partiram para outras rotas. Descobri o bosque à volta deste círculo de água e o zoo que é vizinho da linha de comboio a carvão, que parte dos jadins vizinhos ao lago. Quase todas as vezes fi-lo a correr ou a caminhar. Outras tantas vezes sentei- me a ler e a observar os banhistas corajosos de verão ou provei um dos melhores Siernikis da cidade, no café a meio do caminho. Assisti a provas de remo e um dia aventurei-me a descer o monte junto à pis...