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Ping Pong

Sempre que cruzo aquela cancela olho para a direita para a mesa de ping pong , lá ao fundo, junto à latada. Nunca está lá ninguém e isso é um desafio consumado. Mas hoje estava.  Dois homens, aparentemente pai e filho, jogavam com aquela seriedade de quem conta os pontos e decide de quem é a vez de começar nova jogada, atirando a bola para o outro,  fazendo-a estalar na mesa com aquele "ploc". Eu vou em modo de corrida mas isso arranca-me para horas e horas naquela Fusinato, da via Marzolo. Dá vontade de deixar a corrida e ir lá pedir para jogar um bocadinho. E lembro-me dele. Alto, magro, aquele cabelo negro em desalinho e aquele sorriso rasgado. E de todas as vezes que nos bateu em todos os torneios que organizámos naquela sala, no piso térreo do dormitório.  Pergunto-me o que será do J.. Da última vez que soube dele, pelos jornais, era o rosto de uma desgraça que lhe viria a dar páginas de jornais sobre como resgatar da dor os sobreviventes de uma tragédia. Imag...

Bandeira da paz

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Naquele final de Fevereiro de dois mil e quatro, na noite de Carnaval, eu deixei a praça de S.Marcos nesse lamento antecipado de quem não volta às suas  ruelas, aos canais, ao cheiro da acqua alta , aos becos dos vaporettos.  Regressei, madrugada fora, à velha residência em Padova, peguei em tudo que deixara arrumado no quarto, tirei aquela bandeira da janela, entrelacei-a na mochila e segui para o aeroporto. Essa bandeira, era exactamente igual a milhares de bandeiras que se viam, por essa altura, em todas as fachadas do Norte de Itália. Eu não sabia nada sobre essa bandeira, sobre as ideias, as lutas, os movimentos, sobre as pessoas por detrás dessa bandeira. Chamem-lhe ignorância ou estupidez, o que quiserem. Também ainda não sabia, nessa altura, que viria a ter amigos que elevam uma bandeira muito parecida (troca a ordem das cores), mas ainda numa redoma de medos, reprovações, risinhos idiotas, muito culpa de uma sociedade que se diz aberta, inclusiva, mas no fundo, q...

Mais tempo à música

Estávamos no intervalo e eu tinha acabado de me esticar na cadeira, depois daquele fervor do quarto andamento. Como não sentir cada dinâmica do que foi tingido no papel se ele está ali, quase a explodir num corpo que vai e volta, de onde quase vemos cada músculo marcado? O imenso vidro em frente deixa-nos receber o anoitecer nas árvores do jardim, iluminadas pelas luzes do grande auditório.  É então que ele se aproxima, quase de cócoras junto aos meus pés e pergunta se posso fazer chamadas com o meu telemóvel. Num instante atrapalhado menti. Disse que não tinha saldo mas ao mesmo tempo vi-lhe as mãos a tremer e não parecia ser de nervoso e acedi.  O M. tinha ar de miúdo mas cheirava muito a tabaco, uma barba muito rala e queria ligar à mãe  para a avisar que queria ficar um pouco mais no concerto. Perguntei o número, o qual  me indicou sem dificuldades e depois passei-lhe o telemóvel. Ninguém atendeu e eu tentei novamente.  A mãe atendeu e eu expliqu...

Às vinte e três, à chegada

Cheirava a cedro, em redor da capelinha e naquela escuridão não sei se teria coragem de ir até ao regato, ou às lagoas, mais acima. Sentimos aquela massa de ar frio a prever o orvalho para o amanhecer dos que lá ficam e que vão fazer crescer as histórias para contar vida fora. À ida, o susto com o coelhinho que aparece na estrada. Na volta, uma coruja  e aquilo que nos pareceu ser uma raposa. Não há luz na via e quando subimos as pequenas lombas de alcatrão, há aquele momento em que parece que ficamos sem estrada. Mas há muitas estrelas à volta e em nenhum outro lugar temos pena de que façam chegar o mínimo de civilização. Vêem-se as luzes em Caminha, lá ao fundo, mais longe ainda do que os  pontos vermelhos das eólicas que cobrem a serra. Lembro-me dos garranos e de como será para eles dormir naquela serra. Como se terão habituado a esse zoar das ventoinhas? Ainda levo na boca o sabor doce do licor de figo e já penso nessa noite de Agosto, em que o Minho encerra ali um ...

Numa rua às cinco da tarde

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Eu quis fotografar aquilo que eu dizia que já vai sendo raro - um posto de correio de rua. E acabei por fotografar a ponta de um iceberg de algo não tão raro mas que nunca nos aparece assim, tão à vista. Ela estava ali, dormitando no banco do jardim e ele, noutro banco atrás, de cara coberta com um farrapo preto. Tão negro como a sua alma no primeiro momento que se terá rendido ao material que tinha disposto no banco. Tabaco, molhinhos de substâncias embrulhados em mortalhas, o papel prata, o isqueiro e mais coisas que o meu olhar desviado não viu. Outros dois homens em pé, no murmúrio sinistro das cinco da tarde. Numa rua principal, onde descansam à soleira os homens do talho mais atrás, conversam pessoas na entrada da igreja evangélica, redentora ou algo parecido, o lixo brota das esquinas, os pombos comem dele e às tantas parece que estamos noutra dimensão. Quase nos esquecemos dela quando, depois da câmara municipal, descemos a escadinhas e vamos dar à ladeira da Casa da Cerca e a...

Todos os ventos #3

Sobre o sonho cantava ela, também. "Dream on Girl", de um disco de 2008 que ainda guardo.  Mas naquela noite, vésperas de Natal, chegada a casa depois do jantar da empresa ouvi essa música repetidamente. Só me lembro disso. E do cheiro forte a xixi de gato que nunca saiu daquela casa.  Chão ocre, a lareira com as cinzas de todo os sempre, aquela alcatifa gasta do quarto. Uma janela ampla na sala. E agora mesmo não saberia conduzir até essa casa. Nem tenho memória da zona da cidade. Também as suas palavras ou a forma como se despediu de mim se impregnaram. Mas ficaram lá. No sofá quando me deitei e perguntei o que era aquilo que estava prestes a iniciar. As mesmas palavras que geravam aquela ânsia pelo amanhã, um certo tremor, aquele formigueiro que acelera tudo. E isto seria muito antes de tudo. Mas foi disso que me lembrei quando ela ontem pisou o palco para cantar a balada com o seu nome. Fui até essa noite quando nos despedimos, nesse lugar onde transbordava o rio e v...

Todos os ventos #2

Não me recordo quando mo ofereceu. Creio que já depois de todas as histórias que fui ouvindo, em pé, com a devida distância de uma secretária com papéis, protótipos e outros objectos, ou antes mesmo de rebolarmos numa praia da Figueira em beijos longos e salgados. Ter presente essa dedicatória ajudaria a perceber. O livro está novo. Uma outra marca, de uma impressão digital suja, que marcou poucas páginas. Duvido que alguém o tenha lido, disse à Ana. Pergunto-lhe como era o homem que o levou ao centro comercial. Estaria ele ligado ao mar?  Estávamos na sala redonda do restaurante vegetariano e ainda tinha o picante dos pepinos à moda asiática e do Pad Thai na boca. Contei-lhes o simples de uma história maior que fica cada vez mais difusa, já sem precisão de datas, de acontecimentos. De mágoas, sobretudo. Uma história proibida e, a dada altura, um erro de percurso para ambos. Assim o queríamos acreditar, quando já não podemos salvar nada ou não temos energia para tal. Mas, no...