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No tapete, a lembrar Krommer

Ela tem uma voz firme mas doce.  Tento abstrair-me dos milhões de ácaros que podem povoar aquele colchão esponjoso e respirar a preceito. Toca-me nas costelas e diz-me para eu prolongar a expiração do ar. Ela não sabe que eu troco "inspirar" com "expirar" desde pequena. Na mesma medida que troco "chicken" com "kitchen", desde graúda.  E eu voltei à sala húmida do segundo andar daquela prédio que já fora um centro de saúde, onde todos os sábados ele me dizia que eu precisava de respirar pelo diafragma. E pressionava aqueles dedos sapudos na minha barriga para depois dizer que eu não estava a respirar no compasso certo. Um dia, disse-nos para levar pacotes de açúcar ou de arroz com mais de um quilo. Deitamo-nos no chão, os sacos em cima do diafragma e tínhamos de respirar, soltando o ar e mantendo os sacos quase imóveis. Ele também não sabia que eu não conseguia nadar em mariposa por causa da respiração. Ele dizia quase sempre "não é a...

Cinco segundos de um rio

O meu medo de voar não tem exactamente a ver com o medo de morrer. Tem sim, a ver com o medo de enfrentar o sofrimento, nesses cinco, dez segundos ou a exacta medida em que se dá a desfragmentação do que somos. Será um colapso apenas? E enquanto a Chiara varria os céus da Europa e o nosso pequeno avião parecia desintegrar-se, eu tentei abstrair-me e peguei na revista de bordo. Foi quando vi uma fotografia do Tejo com aquela neblina a desvendar o Cristo Rei e a ponte  naquele porte indestrutível e eu pensei que se morresse seria com vista para o rio, desde a ciclovia com Pessoa eternizado, para onde fujo da cidade apertada de medos do mundo.

25 janeiro

Ter de passar dias sem conseguir ir à sala de estar novamente, aquele cheiro morno de velas queimadas e de espaço fechado com muitas pessoas, o entra e sai dos familiares, amigos, vizinhos que salpicavam o chão com os pingos da água benta enquanto diziam algo solene em silêncio e prescrutavam o corpo do morto, o nosso cansaço cambaleante de memórias, em olhos rasos de água, de quem não consegue dormir, nem comer. O olhar fixo naquelas mãos entrelaçadas num rosário de contas, como que à espera de algo que só acontece nos filmes - ele voltar a respirar - e tudo aquilo ser um enorme engano. As pessoas que nos abraçam e tentam conforto em palavras quando, na verdade, só queremos que nos deixem em silêncio e que todo aquele cerimonial religioso termine, com os sinos a rebate, a urna pousada na pedra central do cemitério, um beijo frio na testa, antes que lhe cubram a cabeça com aquele fino véu, cerrem o caixão, o baixemos na terra e imaginemos o corpo frágil lá dentro, a mover-se, a sair f...

12.01.2020

 - E por falar no telemóvel, não sei onde pus o telemóvel - disse-me ela. E eu, sabendo que falava com ela através do aparelho, fiquei sem reacção. Era um entre outros tantos sinais. Voltei ao domingo, ao meu desassossego como se algo não estivesse conforme, naquela manhã em que apanhava o comboio na estação de Santarém. Acabara de serpentear a lezíria numa manhã fria, a terra lavrada vestida de branco, manhã perfeita, diria naquele cliché-de-redes-socias-com-foto-a-acompahar, mas ficara sem dados de internet quando tentava saber mais sobre o homem bom lá da terra que se finara nas areias do deserto e continuava com aquela sensação de que o mundo não se equilibrava. Não lhe ligara no sábado à noite porque estava a jantar, porque depois fui para o espectáculo e porque depois já não eram horas. E depois passou a amanhã e meia tarde e eu sempre a pensar nisto tudo e quando liguei não passou de uma conversa sobre o tempo, como sempre. Só no dia seguinte, viria a saber das reais ci...

Nunca nos vergaremos

Ao medo. Mas eu fui mais atenta a tudo, sem auscultadores para a música, mudei a rota no parque, andei apenas na zona pavimentada e não fui para a mata, onde há menos iluminação. E vi menos pessoas a passear os cães, a fazer exercício, a andar por ali, apenas. Talvez seja do frio - pensei. Tentanto afastar essa ideia dos acontecimentos das últimas semanas.  As miúdas dos elásticos presos às árvores e dos pesos estavam lá. Mas também elas mudaram de estratégia. Prenderam os apetrechos logo na primeira árvore junto à entrada, numa zona bem iluminada e com acesso à estrada ladeada de prédios.  Nunca nos vergaremos ao medo mas vamos com ele.  Reparamos mais naqueles que se cruzam connosco e fazemos a sua radiografia pessoal e social. Olhámos por cima do ombro, exactamente como quando chegamos a uma cidade pela primeira vez e ainda não a sentimos nossa. E medimos em pensamento a brutalidade a que seremos capazes caso sejamos apanhados desprevenidos, com uma faca encos...

Terra que vai, mar que vem

Pensava eu enquanto olhava aquele recorte dunar, o mar crespo e os avanços na linha costeira. Desci o fieiro, a que chamávamos "fieiro alto", de tão grande que era, e voltei ao caminho ladeado de canaviais. De volta à estrada, tentei correr mas mais acima abrandei porque os vi na berma. Ele, homem curvado pela idade e pelo recobro de uma queda com costelas partidas, e a pequena vitelinha, sangrando do cordão que a expurgou para a vida. O rasto de ervas tombadas denunciaram que a viagem já ia longa, naqueles moldes. Ele tentando arrastá-la e ela tentando erguer-se nas patinhas curvadas, para evitar a corda em laço que a apertava. Foi então que ouvi o meu avô, ali de mãos no cajado, a dizer "a Rita já nasceu". Para logo a seguir entrarmos no estábulo, a luz a denunciar aquele fumo de calor que se levantava do estrume e do estado de natividade puro. Foi esse cheiro que senti quando me baixei, passei os braços pelo corpo da vitelinha e num esforço atroz a ajudei...

Começaria assim

Naquele fim de tarde ele era um vazio mais fundo que um oceano. Nem o tilintar dos mastros junto à doca o arrancavam daquele turpor em que seguia, ainda a desfazer o nó da gravata e de olhos postos no chão. Acabaria por cair a noite e ele por ali, sem arrancar ao corpo um cansaço que o fizesse parar. Foi então que inclinou a cabeça para acender um cigarro e viu o pequeno letreiro, no oleado do barco. Um número de telefone, apenas. Enquanto o passava para um pequeno papel não pensou nesse exacto momento, que barco era aquele, quantas milhas já percorrera e que vagas o poderiam libertar de uma ruína lenta.  Estava sem bateria no telemóvel mas algo lhe dizia para não esperar para o dia seguinte. Caminhou em direcção à avenida principal e apanhou um táxi em direcção ao hotel. Sentou-se no escuro do quarto, marcou o número e esperou.  Nada. Voltou a chamar. Alguém atende: -Boa noite, fala o Manuel.